Explosão de melancolia

Meu irmão fez uma cirurgia essa semana. O médico abriu-o e optou por não operar porque se assustou com o tamanho da hérnia. Espero que ele mude seus hábitos de vida e fique bem. Minha mãe um dia contou que quando eu nasci ele ficou tão feliz que colocou os dois brinquedos que mais gostava num saco de pão e levou para o hospital para me dar de presente. E que quando ela saia comigo de carrinho, ele queria que todas as pessoas me vissem e soubessem que ele tinha uma irmã. O mais estranho nisso tudo é que, mesmo depois de tanto tempo, ele é assim até hoje. Está sempre dando presentes e sente orgulho dos seus irmãos. Ele é uma pessoa muito sensível e fica feliz em agradar os outros. Talvez tenha herdado essa característica do meu avô Geraldo, que adorava nos trazer um salgadinho de presente da rua.

Esses pequenos gestos são tão importantes para nos deixar confortáveis. Não estou nem um pouco confortável no mundo, ultimamente. Ando assustada. Ontem foi aniversário da minha filha mais velha. Ela não queria festa, anda numa fase meio sem amigas. Ela não sabe, mas sofre de sincericídio e está começando a ter problemas com isso. Nós, os pais, estávamos viajando até a semana passada. Então, sem amigos nem planejamento, não fazer festa era a única opção viável. Nem as avós puderam vir e o próprio pai teve que viajar a trabalho.

Eu estava triste, acordei melancólica, mas me esforcei de sobremaneira para tornar o dia pelo menos agradável. Fiz uma sopa de capeletti de almoço, já que é a sua comida preferida. Me beneficiei dessa escolha porque sopa também é a minha comida preferida. No meio da tarde fomos ao super mercado a pé para passear um pouco e compramos um bolinho bem pequeno. Cantamos parabéns e fizemos a lição de casa juntas. As avós ligaram e uma ex-vizinha apareceu com um presentinho. Isso foi tudo. No final do dia ela me disse que estava muito feliz, o que eu sei que não era exatamente a verdade.

Hoje, consegui ficar sozinha à tarde. Nem lembro quando foi a última vez que isso aconteceu. Então, me lembrei do saco de papel pardo com os playmobils, que eu nunca nem vi, do meu irmão e chorei, pra valer. Como naquele dia que fui demitida do emprego que eu gostava. Como quando aquela chefe falou que eu não sabia escrever e que precisava me capacitar na frente de uma estranha que ela tinha conhecido naquele mesmo dia. Como nas muitas vezes me senti culpada por fazer meus pais sofrerem. Como quando eu estava grávida da minha segunda filha e me sentia tão só que soluçava ao pensar na minha avó materna tendo seus filhos sozinha, em casa, sem médico, doula ou o marido. Como quando eu entendi porque meu marido era tão estranho. Como quando eu tive pena da minha mãe e não pude fazer nada para ajudá-la. Como quando eu ajudei minha mãe internando meu pai à força e o vi definhar e perder cada vez mais a razão no hospital psiquiátrico. Como eu chorava escondido quando lembrava de ter visto meu gato de estimação morto na beira de uma estrada. Como nesse verão ao sair de um cartório frustrada por não entender porque não me entregavam nunca um documento que eu precisava tanto. Como no dia que eu sonhei que minha mãe tinha morrido e eu abria um berreiro cada vez que via uma mulher parecida com ela de costas. Prefiro as lágrimas molhando meu rosto do que apertando meu peito.

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