Simpatia para abrir portas

MODO DE PREPARO:
Pegue vinte litros de ar rabugento (com bufadas e resmungos), embrulhe em um saco dourado, dê um laço com fita lilás e enterre a sete palmos, para nunca mais desenterrar.
Em seguida, acenda cinco sorrisos e amarre o nome das pessoas, na ponta da língua, cobertos com mel.
Diga mentalmente “Abra-te, Sésamo” e observe portas abrirem-se.
Obs: Também funciona sem a frase cabalística.

Sim. Simpatia funciona! Ser simpático abre portas.

Eu tenho algumas qualidades mas, caso enumerasse, o item “simpática” não entraria nas dez mais-mais.

Em vez de ter um semblante convidativo e receptivo, acabo — sem querer — fazendo cara de “poucos amigos”.

Acham que sou brava, chata, metida e tal. Se sou? Fica aí a questão, ehehe

É algo automático.

Não que eu seja uma eterna “chata de galochas” (amo esse termo), mas acabo não fazendo muita questão de interagir e agradar. Outras vezes, é pior. Até gostaria de interagir e agradar mais, mas me enrolo por falta de prática.

Sempre tive o mesmo jeitinho não-tão-simpático-de-ser, desde pequenininha.

Será que é hereditário? (ouso dizer que sim, então a culpa da chatice não é só minha).

Talvez se eu tivesse genes mais sorridentes!?

Talvez se eu tivesse o Sistema Nervoso Simpático bem mais simpático do que nervoso!?

Como será que eu seria?

Quais seriam as conquistas, os traumas, os sonhos da minha versão simpática?

Terei auto-empatia e não jogarei esse peso sobre mim mesma, idealizando um eu que não existe.

Não direi que eu teria sido mais feliz e que a vida seria melhor. Apenas teria sido diferente.

Imagino que minha versão mais simpática pensaria menos e viveria mais.

Por ser também introvertida, penso sobre tudo, analiso demais, aprecio o silêncio, preciso de momentos comigo mesma.

Vejo algumas pessoas — simpáticas — que amam estar sempre acompanhadas. Não precisam de momentos de solidão. Não precisam de pausas, muito menos de silêncios. Acho tão estranho!

Estranho e admirável!

Geralmente, a pessoa simpática nos deixa à vontade desde o primeiro momento. Está sempre sorridente, é acessível.

Estar perto de uma pessoa simpática é agradável. É leve. É fácil de lidar.

A pessoa simpática tem o dom de identificar afinidades, demonstrar afeto.

Pessoas simpáticas “ganham a simpatia” de todos.

É a Lei do Retorno.

Se o emissor é simpático, o receptor simpatiza automaticamente (seja simpático ou não).

Filhos da mãe! São assim sem esforço algum.

E como uma pessoa não-tão-simpática faz para “ganhar simpatia” alheia?

Como tudo na vida, não adianta forçar simpatia. Mesmo assim, temos que nos esforçar para melhorar a cada dia, obviamente.

Em vez de não dizer nada, dá para dizer um “Oi!”.

Em vez de contentar-se com um “Oi!”, dá para perguntar “Como foram suas férias?”

Em vez de ficar emburrada ao discordar, dá para “sorrir e acenar”, ahaha só que não é tão autêntico.

Tenho a impressão de que pessoas simpáticas prezam o bem estar e relevam o que não foi tão legal, em vez de remoer como um não-simpático faz.

Quem é simpático prefere “deixar pra lá”, para viver bem em comunidade. Eu vejo assim. Nossa, como admiro! São pessoas positivas e otimistas.

Nos últimos anos, tenho criado mais inimizades do que deveria. Tenho sido ainda menos simpática.

São tempos estranhos, de polarizações, extremismos… e não tenho me esforçado o suficiente para ser simpática com pessoas que pensam de maneira oposta.

Tenho que ver “o lado cheio do copo”, as afinidades, e sorrir para elas.

Olho por olho, antipatia por antipatia, e o mundo terminará cego, com cada um isolado no seu canto.

A antipatia fecha portas. De oportunidades e almas.