Entre o digital e o analógico

Exercitando o desapego em tempos de Netflix e Spotify


Eu completo 27 anos no próximo domingo. Isso significa que ganhei o meu primeiro CD há 17 anos. Foi o Americana, do Offspring (eu estou tão surpresa quanto você sobre a idade desse disco). Na adolescência, eu era a única na minha sala no colégio particular que trabalhava, e acho que uns 70% do meu modesto salário de R$600 ia para o sebo do Robson, que ficava na rua da minha escola e vendia discos, CDs e livros, além de oferecer consultoria gratuita sobre o universo maravilhoso da cultura pop que, dos 12 aos 17, se abriu diante de mim (leia-se: eu matava aula pra ficar na loja do cara batendo papo sobre música, ouvindo discos e tudo mais. Robson, se você estiver lendo isso, saiba que devo parte da minha formação musical a você).

Durante uma parte importante da minha vida, CDs e livros eram os presentes perfeitos. Já faz mais de sete anos que os disquinhos coloridos pararam de fazer sentido na minha vida, e as pilhas que se acumularam aqui em casa não aumentaram mais — a não ser talvez pelo pó que se depositou sobre elas ao longo dos anos. Meus CDs, de repente, só ocupavam espaço. Eu passei de usuária do Kazaa e do eMule pra aquela pessoa que ensina os amigos a baixar torrent e tem HD externo com pasta de música. Hoje, assino um serviço de streaming. Nem drive de CD meu computador tem mais.

Em um surto de organização, resolvi me desfazer de tudo que não faz mais sentido na vida. Separei roupas e livros pra depositar em caixas que devo deixar em algum lugar com um bilhete escrito "livros e roupas grátis". Mas os CDs e os DVDs…

Não deve ser exclusividade minha: o rock me salvou de coisas piores na adolescência. Esses discos foram os companheiros nos momentos em que tudo parecia muito difícil e ajudaram a formar meu caráter e minha visão de mundo, e disso eu não tenho dúvidas. Como deixar essas coisas na rua ou em algum sebo? Alguns deles têm até autógrafos! Como as próximas gerações vão receber autógrafos de seus ídolos? Na pele, pra virar tatuagem? O autógrafo vai ser substituído integralmente por uma selfie?

Eu sou uma acumuladora por definição, mas depois de morar em tantos lugares diferentes e distantes, aprendi que ter pouco pode ser muito valioso. Me desfazer das coisas hoje é mais simples e quase nada dolorido, e eu parei de criar relações emocionais com as coisas. Mas como não me sentir apegada aos discos da minha vida? Me dói mais ainda olhar pra eles e saber que, apesar do valor emocional que têm pra mim, são inúteis de qualquer outra forma.

Sabe aquele momento entre os 23 e os 25 que você descobre que algumas pessoas que você cresceu achando que eram seus melhores amigos não têm mais nada a ver com você, e você sabe que deveria deixar as coisas serem como são e se afastar, mas acaba se apegando ao que viveu com elas no passado e força uma proximidade que não tem como dar certo? É isso. É assim que eu me sinto em relação aos meus CDs.

Os livros não despertam em mim dilema nenhum, porque seria dificílimo comprar todos os títulos físicos que eu tenho em formato digital. Mas será que no dia em que todos formos assinantes de um possível Netflix dos livros eu vou me sentir do mesmo jeito em relação aos meus livros físicos — velhos amigos aos quais eu sou grata pelo passado mas que não me trazem mais nada de bom ou novo no presente?

Terminei de arrumar o quarto e empilhei os CDs em uma prateleira no alto, incerta sobre o destino que os pedaços de plástico deveriam ter. Talvez, um dia, eu me desapegue o suficiente do valor material bastante irracional que eles ainda têm pra mim e eles virem artesanato na mão de algum hippie. Por enquanto, não tenho estômago pra isso. Os CDs ficam, mesmo que eu não toque neles por outros sete anos.

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