Quando as plantas não curam

Isso pode ser uma farmácia ou uma biqueira com produtos de procedência duvidosa, dependendo do ângulo

Uma das frases mais notórias do cientista grego Hipócrates (hahahaha), considerado um dos pais da medicina, é “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”. Que a frase de um estudioso que viveu quase 500 anos antes de Cristo ainda faça sentido hoje não é grande surpresa; a surpresa é que um conhecimento que a humanidade tenha há tanto tempo esteja, pouco a pouco, se perdendo na cultura contemporânea.

A minha geração é filha ou neta de imigrantes do campo pra cidade. Por isso, todo mundo que teve alguma convivência com os avós ainda sabe desse ou aquele chá milagroso. Quando você para pra pensar, é impressionante a variedade de problemas que a medicina herbal pode ajudar a curar. Desde dor de estômago e má digestão, passando por alergias na pele e indo até cabelos quebradiços: tudo isso, aparentemente, tem uma solução que pode crescer no quintal. E se a natureza dá tudo o que a gente precisa pra ser saudável, por que estamos esquecendo esses conhecimentos — e pior, ignorando relatos modernos que dão conta de plantas e vegetais que podem ajudar a curar doenças para as quais ainda não temos cura?

Cura pelas plantas funciona?

A resposta é curta e grossa: sim, claro que funciona. Os remédios que a gente conhece e compra na farmácia com receitas, produzidos pelas grandes indústrias farmacêuticas, são simplesmente versões sintetizadas em laboratório de compostos encontrados na natureza. Em muitos casos, foi a tradição cultural e oral da humanidade que chamou a atenção de cientistas, que resolveram então testar aquele chá milagroso em ambiente controlado e usando método científico para chegar a um remédio. Um exemplo bom é da Aspirina. No séc. V antes de Cristo, Hipócrates — o cara de quem eu falei no primeiro parágrafo — descreveu que o pó feito a partir da casca do salgueiro aliviava dores e diminuía a febre. O princípio ativo da mistura herbal? Ácido salicílico — que em 1897 foi combinado pela farmacêutica Bayer com acetato, criando o ácido acetilsalicílico, uma versão menos tóxica do pózinho descrito por Hipócrates mais de 2.000 anos antes.

De acordo com Saulo de Oliveira, pesquisador de ciências biomédicas do departamento de estatísticas da Universidade de Oxford e um dos meus melhores amigos na vida toda, a história da Aspirina ilustra bem um dos motivos principais pelos quais as curas herbais foram perdendo a força a medida em que a ciência evoluiu: versões sintetizadas em laboratório são mais eficientes. “Para desenvolver novas drogas, as empresas farmacêuticas usam bancos de dados de compostos orgânicos. Esses compostos podem sim ser originados de plantas, mas muitas vezes, como esses compostos originais não são potentes o suficiente, eles são otimizados. O intuito e fazer um medicamento que seja potente e seguro”, ele disse.

Além disso sintetizar um composto em laboratório e produzí-lo de maneira controlada é essencial para evitar interações e efeitos colaterais indesejados. Por exemplo: O ginko biloba é uma árvore chinesa conhecida por melhorar a atenção, a memória e combater a vertigem. Estudos já demonstraram a capacidade da planta em combater demência. No entanto, em algumas cobaias foram observadas hemorragias internas e recomenda-se suspender o uso da planta até 36 horas antes de cirurgias ou procedimentos dentários. Ah: epilépticos também devem evitar a Ginko, pois neles a planta aumenta a chance de convulsões.

Achou a linguagem parecida com a de uma bula? Pois é. O problema é que a árvore não vem com uma, enquanto drogas sintetizadas em laboratórios passam por procedimentos de testes muito rígidos, que duram anos, justamente para que interações e contra-indicações como essas possam ser testadas, avaliadas e, se for o caso, informadas na bula. Só que se você pega uma planta do quintal e toma, não tem como saber disso.

Mas a natureza é maravilhosa!

Sim, ela é! Não que a medicina queira dizer “jamais use plantas como remédio”, já que é notório que a comunidade acadêmica reconhece o poder de medicamentos fitoterápicos. Só no Brasil, por exemplo, a Universidade de Juiz de Fora tem um Programa de Plantas Medicinais e Terapias Não-Convencionais, um centro dedicado a estudar tratamentos alternativos.

A ideia é apenas desmitificar a ideia de que “uma erva natural não pode te prejudicar”: compostos orgânicos na natureza podem sim ajudar a combater problemas de saúde, mas também trazem efeitos colaterais. É preciso conhece-los antes de se aventurar em um tratamento mais roots (com o perdão do trocadilho). Claro que há vantagens em usar as plantas: os efeitos colaterais, embora existam, costumam ser leves, plantas costumam ser baratas e a medicina natural é conhecida por aumentar a imunidade do organismo, já que deixa parte do trabalho da cura com ele.

Há, também, desvantagens de tratamentos usando plantas. Além das que a gente já mencionou, tem a falta de conhecimento sobre a dosagem, o risco de intoxicação e envenenamento e a falta de regulamentação, que faz com que a gente acabe correndo o risco de comprar ervas de qualidade menor, sem garantias de que o princípio ativo importante pra nós esteja mesmo lá.

Teoria da conspiração: farmacêuticas fazem lobby?

A gente não é ingênuo: as indústrias farmacêuticas são um dos setores que mais gastam dinheiro com lobby. No caso das indústrias desse ramo, é fundamental garantir que a política ande depressa para regulamentar novas drogas, passar leis que barateiem compostos e facilitem a pesquisa científica, por exemplo. E nem precisa ir tão longe: todo mundo sabe que o lobby dessas empresas também é forte entre a classe médica. Viagens e presentes pagos por farmacêuticas a médicos são frequentes e todo mundo já teve que esperar a mais por uma consulta por causa daquele representante que veio entregar amostra grátis pro seu médico.

A pergunta é: se todo mundo sabe que a indústrias farmacêuticas sabem melhor do que ninguém comprar influência para lucrar, porque eles não fariam isso boicotando curas mais baratas para doenças que a gente conhece? Não parece que esse seria um limite ético pra elas, considerando todo o resto, certo?

Pode até ser que isso role às vezes. Na maior parte do tempo, no entanto, a verdade é muito mais monótona, o Saulo me contou. Tem a ver com controle, legislação e o quão caro é pesquisar, desenvolver e colocar no mercado uma droga eficiente contra determinada doença. “No geral, para desenvolver uma nova droga, estima-se que do começo ao fim custe em torno de alguns bilhões de dólares e pelo menos cinco anos. Ou seja, elas demoram cinco anos pra começar a lucrar em cima de algo que custou muito caro.”. Para isso, dependem da patente — para garantir que vão recuperar os custos e lucrar, ninguém mais pode vender aquele remédio. “A hora em que uma empresa patenteia o produto é bem critica. Se eles patenteiam muito cedo, pode ser que a patente expire antes da empresa farmacêutica conseguir o lucro. Se eles demorarem demais, pode ser que outra empresa patenteie.”

É um jogo de estratégia do qual, no nosso sistema econômico, fica difícil de desviar. No fim da linha, esse sistema acaba prejudicando os portadores de doenças raras, já que as empresas não vão correr o risco de gastar os tubos desenvolvendo uma droga que não vai recuperar os gastos, já que apenas um número diminuto de pessoas terá interesse em compra-la.

A questão é que qualquer grande empresa farmacêutica quer o lucro. E quando você vir o relato de alguém que se curou de algo grave usando uma planta, lembre-se que é impossível saber se foi alguma outra coisa que curou essa pessoa. Essas são as chamadas evidências anedóticas, que os cientistas procuram eliminar quando testam drogas em ambiente controlado. Alguém que tomou um chá para combater a gripe e se viu curado dias depois pode ser sido curado pelo processo de combate a doenças de seu sistema imunológico, por alguma outra coisa que tenha tomado ou por qualquer outro fator que ela deixa de observar em casos como esses.

Além disso, na medida em que a ciência investiga e começa a comprovar evidências de compostos naturais que curam doenças, não faltam farmacêuticas pra pular em cima da chance de produzir um remédio e ganhar dinheiro. Se ninguém fez isso ainda, é porque faltam evidências o suficiente e o risco de investimento ainda é alto demais.

Eu também gosto mais de teorias da conspiração, mas se tem uma coisa que eu aprendi como jornalista é que a explicação mais simples pra um problema geralmente é a verdadeira.

A solução, diz Saulo, é mudar o modelo. “Existem propostas politicas para estender o tempo das patentes para doencas raras. Mas o ideal é que a maneira com que desenvolvemos os testes (para novas drogas) se tornem mais baratas.”

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