Tipo coisas da sétima arte

Eu estou com medo. Estou assustada. Como um gato encurralado contra a parede, estou rosnando para todos os lados, para todas as pessoas, avançando em quem tente se aproximar. Aquelas mãos tão carinhosas eu não reconheço. Como um gato assustado, apenas espero meu dono voltar.

Eu sigo as suas pistas fracas, falhas, tentando descobrir se aí ainda resta algum lugarzinho para mim, por menor que seja. Será que ainda há amor? E será ele suficiente para que sejamos capazes de deixar nossos erros para trás, aprendendo com eles, mas nos perdoando por tudo?

Será que todas as suas palavras e todos os seus gestos e todos os seus carinhos se despedaçaram, se esfarelaram e o vento levou? Será que agora só resta aí dentro o ódio mortal por mim? Será que você também sente a minha falta, será que você também sente essa dor? Eu dizia que superava as coisas rápido, mas tenho medo, pois parece que você me superou.

Todos ao meu redor tem raiva de mim, todos ao meu redor me odeiam, todos ao meu redor querem que eu sofra. Você está no meio da multidão? Você veio junto aos aldeões queimar a bruxa? Eu não consigo te enxergar em meio à fumaça do fogo das pessoas que querem me matar. Eu tenho vislumbres de você às vezes. Como se estivesse tentando esconder que você colocará fogo em mim e me assistirá queimar, até que as minhas cinzas sejam carregadas pelo vento e eu não possa mais pecar. Talvez sejam apenas miragens e, no fim, você venha me salvar. Talvez, no fim, você diga a eles que eu não sou bruxa, que eu pequei como qualquer ser humano, mas que me arrependo. Talvez, no fim, você venha me dizer que eu mereço uma segunda tentativa de viver.

Repara quantas alusões à pecados? É que eu estou começando a acreditar em Deus. Não o das igrejas, das religiões que nos ditam o certo e o errado, o que devemos fazer. Mas Deus enquanto energia maior dentro de todos nós. Eu não sei o que há nos céus, mas sei que, quando eu não podia mais aguentar o medo, eu conversei com os céus, pedi ajuda. A ajuda veio mesmo, mas agora já não sei mais se devo criar esperanças de que você venha me salvar no final, ou se devo acreditar que a ajuda será apenas o golpe de misericórdia.

Nos momentos de mais calma, nos meus momentos mais centrados, às vezes acho até graça de como isso tudo parece enredo de filme de comédia romântica. Lembra dos nossos tão falados clichês? A gente bem que podia ser protagonista e viver um felizes para sempre no final. Estamos no clímax, daqui a pouco, o próprio curso dos acontecimentos, nós mesmos descobrindo nos amarmos acima de tudo, arrumaremos as coisas, nos encontraremos num momento e saberemos que devemos estar juntos.

Mas talvez esse filme seja um drama, ou uma grande tragédia grega. Nesse caso, estamos nos encaminhando para o final. Um final triste e depressivo, desses filmes que quando a gente assiste e não chora somos taxados de insensíveis. Seremos nós protagonistas dessas histórias cult que eu gosto de assistir nos cinemas caros de Botafogo? Você está ouvindo aquelas trilhas sonoras de fim trágico dos filmes pós modernos?

Ou talvez possamos apenas escutar uma música da Adele de fundo, indicando um filme “de gente normal”, desses que você gosta de assistir. Talvez seja a hora de eu sair pelas ruas andando sem rumo e imaginando você em todos os lugares que já estivemos juntos. Quem sabe a gente não possa mudar o roteiro?

Quem sabe no final nós nos olhemos, bem de perto, dentro de um abraço, e riremos disso tudo. Como somos bobos apaixonados! pudemos pensar que o outro estaria melhor sem nós, tivemos medo de nos perdermos, sentimos nas costas, o mais difícil de carregar, peso da culpa. Como somos frágeis criaturas, no final tudo acaba bem, é claro.

Sim, estamos no clímax da nossa história. Já já essa dor toda vai passar. Afinal, e se não tiver um casal feliz e um felizes para sempre? Ou mesmo, se no final não tiver todo aquele amor recíproco? Mesmo que um dos personagens morra, os protagonistas sempre terminam se amando, com um magnífico beijo no final.

“Finais tristes, com pessoas separadas e solitárias não vendem e não batem recorde de bilheteria.” seria um brilhante fim para esse texto. Cheio das grandes esperanças dos jovens amantes. Seria, se não houvesse o medo, se não houvesse as inúmeras vezes em que me assombrou o fantasma da dúvida, o fantasma da certeza. A dúvida se você me amava ainda, e a certeza de que você não me queria mais.

Eu estou com medo, muito medo desse final. Não quero que minha história vire filme cult trágico. Pode ser só um clássico de Hollywood dos anos 1960, em que, mergulhada no mundo vintage, você possa ser o galã. Eu sei que você não se vê assim, mas eu até acho que você leva jeito pra ser par romântico da Audrey Hepburn.

Eu não posso ir a Paris e voltar uma nova pessoa, linda e madura, para que você se apaixone. Nosso filme terá que ser mais parecido com Breackfast at Tiffany’s. Nenhum de nós tem dinheiro para os diamantes, e eu chamo a minha gata de Gata, apesar de ela ter um nome. Eu acho que só comprarei móveis e passarei a chama-la pelo nome dela quando encontrar algo ou alguém que me faça sentir como você.

Sinceramente, eu preferia só te encontrar mesmo. Em alguma esquina, num dia em que eu esteja 30 min atrasada, como sempre. Prefiro reprisar essa cena milhões de vezes na minha cabeça à acreditar que você vá passar pela minha vida apenas como um meteoro: Atravessando o meu céu rápido e enchendo tudo de luz nos momentos em que esteve aqui.

Eu prefiro imaginar que em breve estaremos sentadinhos num píer na Lagoa e você me ouvirá cantar Moon River, numa clara demonstração do mais puro e inocente amor.

Incomodado com o universo vintage perdido nos anos 60? Sem problemas. A gente pode viver alguma história parecida atual. Mas aí você vai ter que escolher o título, porque, você sabe, já tem um tempo que eu não assisto esses filmes normais.

Eu estou com medo, apesar de, nessas palavras, parecer esperançosa. Estou com medo que você escolha os grandes dramas e as grandes tragédias. Sabemos que dessa vez quem vai sofrer sou eu, sabemos que dessa vez eu sou o elo frágil.

Nessas intermináveis horas que passam, eu vagueio pela televisão a procura do que assistir para passar o meu tempo. Devo assistir os romances e sonhar que em breve seremos nós vivendo aquelas cenas? Ou é hora de me apiedar dos dramas e tragédias, consciente de que é aquilo que me espera no final?

Eu estou com medo. Estou assustada. Como um gato encurralado contra a parede, espero a volta do meu dono para me dizer o que esperar.

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