RIO VERMELHO

Sempre vira nos morros uma beleza lúcida. Um amor impróprio, como quando se ama algo que jamais deveria existir. Uma bestialidade.

Sempre entendera o desprezo e a inexistência. Como se, mesmo que aquelas casas invadissem o morro de tal forma que acariciassem o céu, mesmo que estas tomassem conta de todo o interior Brasileiro e fosse vista através dos mais longínquos céus, ainda estariam ali, todos que andam por Copacabana ou Costa Azul, os franzinos narizes a ignorar-lhes.

Via nos morros uma beleza feia.

Aquela beleza indiscutível da alegria em meio a miséria. Era revoltantemente lindo, ver os moleques correrem atrás da bola em meio a lama da quadra em pedaços do morro. Eles sorriam e gargalhavam como se não tivessem mais nada, e não tinham. Contavam unicamente com a força das pernas que os levavam ao longo das subidas e descidas do Lacerda até os gracejos dos Gringos, ao implora-lhes com uma voz ingenuamente dócil e faminta:

-m-moooço, o senhor poderia, por favor….

Quando um do grupo conseguia a dita “ajuda”, todos saíam correndo juntos, saltitando ao terem ganhado o dia.

Oque é mais triste? Vê-los terem de pedir esmola ou a entregarem para outra mão?

Acontece que toda vez que por ali passava, encostava a cabeça no vidro do carro e sentia angústia de querer estar ali. De correr com eles, rir com eles, jogar bola com eles, de abraça-los e compartilhar da única coisa que possuem, a miséria. Queria passar a mesma fome, mesmo frio, mesma sede.

Queria fazer todos passarem a mesma dor. De brincar e sofrer.

Até ninguém ansiar aquele maldito morro.

Até ninguém mais ver beleza naquela coisa feia.

E ver beleza nas pessoas que ali residem.

As pessoas, sim, as pessoas.

Derrubem o morro.