Ano Novo? (2 0 1 — )

É engraçado como todo final de ano carrega o clichê de um virar de página, como se pudéssemos fazer esquecer toda uma história de vida nos 10 últimos segundos do ano; como se tudo pudesse ser apagado com uma borracha de forma muito simples. O ano sempre é novo, mas a pessoa que somos, nunca é. Porque carregamos cicatrizes, dores, amores e marcas de mudança. Traçamos planos, revivemos histórias, repetimos aquele erro.

Ao mesmo tempo que somos, não somos, simplesmente porque nos reinventamos dia após dia.

Vivo com uma sensação agonizante de que tudo está fora do lugar. Vivemos eloquentemente insatisfeitos. Correndo. Fugindo daquilo que é aversivo em uma busca incessante e cansativa por prazer. Vivemos sem olhar, apreciar. Vivemos esperando um dia de amanhã que pode nem chegar.

A era do touch substituiu uma das coisas mais bonitas que existem: o toque, o sentir o calor do outro. A paz de um abraço naquele dia que não foi lá muito bom. O calor imenso de ver o sorriso de uma pessoa que talvez você nem conheça. Não fazemos mais uma visita ao outro. As conversas são limitadas a banalidades. Os adultos esquecem que foram crianças, as crianças são tratadas como adultos. Os adultos correm sem parar, sem direção nenhuma e as crianças, esquecidas, travam o olhar nas telinhas de 5 polegadas, da manhã até o fim do dia.

O ano é novo e me parece que as coisas nunca mudam de fato. O ano é novo. Meia-noite. 00:01. Feliz. Ano. Novo. Promessas, metas, recordações. Poder sobre o tempo, talvez. Significações constantes. Inutilização da vida. Mais um ano. Mais um ano. Mais um. Mais…

É realmente tempo de recomeçar? Gosto de pensar que é tempo de continuar. Seguir. Se perder novamente e continuar tentando. Todo recomeço trás uma ideia de deixar tudo o que passou lá, naquela caixinha intocável que chamamos de passado. Mas sabemos que não é bem assim que funciona. Que nossos mecanismo de defesa nem sempre estão fortalecidos e que uma hora ou outra aquele problema inacabado volta. Sempre volta.

Mais um ano.

O amor pode não chegar na medida certa. A dor pode sobrepor os momentos mais extraordinários que estão por vir.

Na busca incessante por prazer tratamentos, muitas das vezes, a tristeza como patológica. “Nunca fique triste” é o que dizem. E não ficamos. A fantasia dura menos de 24 horas. À noite, a cabeça pesa no travesseiro.

Mais um ano.

E podemos sim ficar tristes. Chorar. Nos envergonhar. Perder. Certo dia a Lua estará cheia só para que possa minguar nos dias mais afrente. E isso não é um problema. Existe uma beleza intrínseca nessas mudanças de fase.

Somos isso: mudança. Talvez nem sempre constantes ou coerentes. E é exatamente nessa incerteza que a beleza existe.

Para o ano “novo” sugiro: Resignificação. Da vida, da sorte, dos sentimentos… de si, do outro.

Datas são apenas números. Novo mesmo é o significado que se dá a essa troca do 7 para o 8. 201(8).

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