Nossos limites são os limites da nossa visão

Texto escrito a partir de mais uma das conversas com Fabi (boa parte das idéias foram colocadas por ela)

Falávamos das fronteiras, dos nacionalismos, como uma forma de racismo. Na verdade, base de um sistema absolutamente doente, que não se vê como tal. Falei do bullying que pratiquei na escola, quando tinha cerca de oito anos, do estado inconsciente em que me encontrava então, dos preconceitos que reproduzi sem pensar, do papel da escola em fazer reproduzir os preconceitos. Lembro que naquela situação uma professora e sua fala contundente e amorosa foram fundamentais para que eu e minhas amigas caíssemos na real do que vínhamos fazendo.

Nós seres humanos consideramos os limites entre países, raças, classes, como algo sólido. Alguém que vai atravessar uma fronteira passa por todo um escrutínio antes de ser admitido. Uma criança que nasce em determinado local recebe direitos que a outra, nascida a poucos quilômetros de distância, são negados. Isso nos parece natural. Não vemos o quanto de insanidade há nestas diferenciações arbitrárias, que a inúmeros custam a vida.

Gostaríamos de que a humanidade caminhasse em direção à possibilidade de realmente usufruirmos do que pode ser a experiência de estar nesta Terra juntamente com milhões de outros seres em colaboração, amor, unidade. Parecemos, porém, nos distanciar cada vez mais deste ideal. Deve haver alguma solução simples que não está sendo vista.

Não importa se consideramos que o Estado é sinônimo de corporação ao denunciar o estadismo e o corporatismo, como sendo negócios que interessam a poucos em detrimento dos muitos oprimidos. Por que ater-nos a essas diferenciações que não dizem respeito à essência? Porque, de alguma forma, o sistema está dentro de nós e não ousamos verdadeiramente colocá-lo em risco.

Somos complexidades, constituídas por algo que em parte comandamos, mas, em grande parte, não.

“I´m a revolutionary”.

Não. Na verdade eu e você não somos perigosas para o sistema. Pretendemos denunciar o “buraco”, quando, na verdade, lá no fundo, mantemos uma amizade com ele. Quando, na terapia, digo que estou reproduzindo um padrão neurótico, mas “estou vendo”, meu terapeuta sabe que estou vendo em parte. Que, tanto quanto estou vendo, estou atuando esse padrão repetidamente. Tentamos superar nossos padrões neuróticos, mas acabamos presos em nossos limites. Tentamos denunciá-los e a linguagem nos falta. Acabamos nos traindo.

Você saberá quando se tornou um revolucionário no momento em que começa a desviar de balas. Berta Cáceres era assim e foi morta. E tantos outros.

Penso que o primeiro passo de coragem, para um dia chegarmos a fazer diferença, é olhar de frente para essas barreiras que existem em nós. Olhar com coragem e honestidade, sem deixar que o sentimento de vergonha ou impotência tome conta de nós. E, aí, começar a pensar em como rompê-los, superá-los, expandi-los. A mesma compaixão que temos pelos outros temos que ter por nós. A partir dela, construir a base de nossos movimentos.

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