Gostar de ler ou gostar de acumular livros? — uma reflexão sobre consumo literário

Eu, mais ou menos, tenho um ritual praticado ao chegar em casa depois de um dia de trabalho. E eu digo mais ou menos porque, na verdade, não é nem um ritual, é mais um amontoado de manias que desenvolvi ao longo do tempo, que me faz bem e, por isso mesmo, é repetido em alguns dias — e eu digo alguns dias porque seguir uma rotina sem furos ainda não faz parte da minha realidade, e tá tudo bem, um dia chegaremos lá.

Sentar no chão, cruzar as pernas, fazer um carinho no Leoni, fazer outro carinho no Leoni (temos um cachorro realmente amante dos carinhos, perceba), ficar bem perto do livreiro e olhar meus filhos literários por alguns bons minutos faz parte dessa prática quase-diária.

É especial olhar cada lombada colorida e letrada e relembrar o momento em que os comprei: um passeio aos sebos da Pedroso de Moraes num sábado ensolarado, uma visita à Cultura depois de tomar umas cervejas na Augusta numa quinta-feira chuvosa, as idas à Saraiva do Eldorado no horário de almoço, pessoas que me acompanharam nesses passeios, bares, restaurantes, vendedores de bijuterias descobertos em diversos cantos de São Paulo e a felicidade singular de escolher o livro novo, apreciar a capa, cheirar as páginas, apresentá-lo à sua nova estante e finalmente lê-lo!

Contando assim, parece que eu já li tudinho que tenho na coleção, mas a triste realidade é que até a parte em que eu acomodo os livros em minha casa, a história é realmente mágica e alguns desses momentos têm o poder de aquecer meu coração com a mesma intensidade vivida no dia em que aconteceram! Preciso confessar, porém, que por vezes eu me pegava angustiada por ver, por exemplo, um livro que comprei há 5 anos muito longe de alcançar seu devido fim: ser lido! Além disto, seguidamente eu questionava a razão daquele título ter ido parar ali naquela pilha-de-livros-de-ana e duvidava muito que eu fosse curtir a leitura.

Uma salva de palmas para as crises existenciais que nos inspiram a repensar e ressignificar os velhos hábitos. Foi durante uma dessas crises que decidi parar de comprar livros. O cenário perfeito mostra uma Ana que, tendo lido cem por cento dos livros que possui, caminha alegremente até uma livraria e escolhe sua próxima leitura.

Estou anos luz distante do cenário perfeito e, na real, o que importa é que cada compra feita nos últimos meses teve um motivo (estudos, continuação de uma série, uma indicação massa de um amigo ou influenciadora). Sempre que possível, faço empréstimo em bibliotecas ou troco livros que não curti por outros que estão na minha lista de desejos. Além disso, parei de tratar o consumo de livros como um jogo no qual quem tem mais ganha: no final eu era vencedora e perdedora, ao mesmo tempo — mais perdendo do que ganhando, devo dizer.

Nesse processo todo, me deparei com verdadeiros presentes da literatura. Histórias que me preencheram tão absurdamente, dando um gás pra continuar o projeto. Pretendo contar sobre essa experiência — inclusive incluindo as que não foram tão bacanas assim — nos nossos próximos encontros textuais. Ótimas leituras para todos nós :)

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