Uma maneira sensível, delicada e bem-humorada de falar de coisa séria

A experiência de leitura da peça Lisbela e o Prisioneiro, de Osman Lins

Não pretendo incluir nesse texto um resumo da história. Em primeiro lugar porque esse tipo de informação tem aos montes por aí e em segundo porque a ideia é expressar minha impressão ao ler a obra e não sobre a obra em si! Isso não é uma crítica literária, fiquem avisados!

Misturar temas relevantes de forma leve e bem-humorada, nos convidando a refletir sem precisar endurecer o coração é tão necessário nos dias de hoje! E foi assim com a leitura-encenação — já que, não sei vocês, mas eu sempre leio peças interpretando todos os papéis com entonação, ritmo, sotaque e tudo mais — de Lisbela e o Prisioneiro.

Dá pra encontrar de tudo nos três atos escritos por Osman Lins, esse cara que nem conheço e já curto pacas: tem linguagem regional, fazendo a gente relembrar daquela vó que fazia um bolo maravilhoso e contava causos pavorosos, tirando o sono e forçando nossa bexiga a segurar o xixi até clarear o dia (ir ao banheiro no escuro, correndo o risco de encontrar o Zé do açougue, que comia carne humana, nem pensar!). Esse jeitinho de falar corrido com humor é um traço marcante e apaixonante da obra!

Também tem corrupção, gestão irresponsável e incompetente, aquele jeitinho brasileiro de governar que a gente tanto detesta e faz lembrar daquele guarda de trânsito que cobra propina para não confiscar um carro sem documento, ou daquele moço que odeia o presidente ladrão, mas simulou o roubo do carro pra pegar o dinheiro do seguro.

O amor marca presença, assim como as traições, o machismo que pretende dominar e paralisar e a força e coragem daquelas que querem voar, feito um passarinho que a gente liberta depois de ficar dias confinado numa gaiola pequena e suja!

O tempo todo tem poesia, num ritmo muito bem construído, gostoso de ouvir, gostoso de ler! É um carinho feito com palavras!

O trabalho desse autor pernambucano é calcado na pesquisa, no cuidado e na delicadeza e nos conduz numa viagem a uma história criada há mais de 50 anos, mas que caberia perfeitamente nos dias atuais.