Contos de Algodão

Parte III Final- Patrão

Fios de cabelo me encantam, quando eu era jovem, entrava no quarto de minha irmã e cortava seus cabelos louros dourados, os guardava dentro de meu diário, para meus pais não verem. Quando minha irmã ficou sem cabelo, meus pais acharam que ela havia enlouquecido, mal sabiam da verdade e a mandaram para um hospício, onde ela está internada até os dias de hoje.

Vou herdar esta fazenda e todos os escravos, vou cortar cada fio de cada escravo até não sobrar nenhum e obrigarei-os a vislumbrarem seus preciosos cabelos, espalhados pelo algodão. Não terei empatia por nenhum, como mamãe, ela sempre deu comida e um espaço grande para eles descasarem. Um gaste de dinheiro, por isso estamos mais pobres que a fazenda do lado.

Lembro-me da morte de meu pai, ele estava doente e Beatriz, aquela maldita, confessou que eu havia enlouquecido minha irmã e ele acreditando nela, me agarrou pelos ombros e berrou “Monstro”. A voz dele ecoou por toda a casa, até Júnior correu para tirar Beatriz do quarto. Minha mãe correu aos meus braços, batendo nos braços de meu pai, que por múrmuros, tentava explicar o que havia ocorrido. Com raiva, observo o cabelo grisalho de minha mãe, ela sempre se pareceu com minha irmã e eu precisava praticar a dor. Num segundo, eu arranquei seus fios, ela berrou e chorou. Meu pai vendo tudo aquilo, tentou se levantar, mas seu coração parou na hora. Minha mãe correu e eu a segui, como agora estou seguindo Beatriz, depois de sua fuga, o cabelo dela se espalhou em meu diário, vou manda-la limpar.

Meu Deus, todos me olham, não tem medo de olharem para seu patrão, quanta ousadia. Júnior está de costas, tremendo, parece alarmado. Ele deveria estar trabalhando. Ele se vira, seu rosto está molhado e ele segura minha arma, será que esse esse escravo teria coragem?

“A justiça divina é a única que não falha, nós não somos simples escravos, somos pessoas e merecemos um trabalho ideal, comida, casa e respeito, não somos tão diferentes, Patrão, nós dois somos homens a procura de algo, mas você procura a dor e eu a justiça! Diga ola ao demônio!”

Pai?

-Ana Laura