Contos de Algodão

Parte I- Beatriz

O fazendeiro cortou meu cabelo com uma tesourinha cinza de cortar unhas, ele guardou os pequenos fios castanhos em seu diário, preso por um laço roxo avermelhado. Depois que eu consegui me soltar de seus braços, corri pela colina e cai no algodão, os colhedores me olhavam com tristeza, mas nada poderiam fazer para me ajudar. Os galhos fizeram um pequeno corte em meu dedo, dele saiu um vermelho vivo me lembrando o sangue do boi que eu tive que matar para não morrer de fome.

Mas neste dia estava frio e eu abraçava minhas irmãs. Hoje está quente e minhas irmãs foram vendidas. O calor faz minha pele arder e meu vestido branco suar, eu não sinto dor, do calor, do corte, ou, de meu patrão cortando o cabelo que um dia minha mãe penteava com exaustão e cantava ofegante com orgulho. Ela morreu antes de ver suas seis filhas serem vendidas, um verdadeiro milagre.

Júnior não para de me olhar, deitada neste algodão. Coitado, sempre ajudou as pessoas e agora apenas pode observar. Eu o entendo, quando minhas irmãs foram levadas, eu apenas observei, elas sendo jogadas como lixo e caindo com a delicadeza de uma dama. Minha mãe diria que é uma vergonha não salvar a dama. Mas não somos damas.

Apenas posso me deitar e orar. Clamar por dias melhores.

-Ana Laura