A notícia do terremoto na Itália me fez lembrar que já passei por três

Enquanto morei na Itália, passei por três terremotos. Em um deles, o que teve epicentro na cidade de L´Aquila em 2009, acompanhei o meu marido em uma cobertura jornalística.
O anúncio do terremoto já começou no nosso apartamento na noite anterior. Estávamos há algumas centenas de quilômetros do epicentro, mas senti a mesa tremer enquanto estava no computador. Claro que achei que fosse alguma sacanagem do meu marido batendo com o pé. Então, vi a água no copo se mexendo e o armário da cozinha batendo na parede. Putz, terremoto! Morávamos em uma cidade litorânea e a areia amortiza os tremores. Nada de grave aconteceu por lá. Foi um tremor breve. E uma sensação ruim.
Acordamos cedo e vimos as notícias da catástrofe que havia acontecido durante a madrugada. L´Aquila foi a cidade mais atingida. Arrumamos as coisas. Pegamos muita água e mantimentos. Obviamente não encontraríamos nenhum comércio funcionando em uma região terremotada.
Alugamos um carro e andávamos na contramão do movimento da estrada. Era assustador ter a noção de que só o nosso carro seguia naquela direção. Para aliviar os ânimos, montanhas gigantescas com neve no topo, nos davam uma paisagem lindíssima. Entramos no túnel que perfurava uma dessas montanhas. Só havia o barulho do motor do carro. E o medo de estar dentro daquele troço começou a bater. Fui diminuindo a velocidade até estar a míseros 40 km/h. O túnel parecia infinito! Não tinha visto a placa avisando que íamos percorrer 9 km dentro daquela escuridão claustrofóbica.

Chegamos à L´Aquila. A cidade fica no topo de uma montanha, na região de Abruzzo. Era um cenário de guerra. A cidade parecia ter sido bombardeada. Meu marido foi um dos primeiros jornalistas a chegar lá. Enquanto caminhávamos pelos escombros, fotos e objetos pessoais no meio da rua me chamavam a atenção.

Parávamos. Conversávamos. E muitas pessoas falavam que haviam perdido a casa, as suas coisas, que tinham amigos desaparecidos ou que tinham perdido a família inteira. Eram muitas lágrimas que caiam sobre aqueles escombros.
Andamos na “zona rossa” (zona vermelha, em italiano), que ganhou esse nome somente um dia após o terremoto, quando as autoridades começaram a organizar a tragédia. Era uma área altamente perigosa com possibilidade de desabamento do que restou de algumas construções. A partir desse dia, somente os bombeiros transitavam por lá. Famílias que moravam nessa área ficaram muito tempo sem poder resgatar os seus pertences.

Com muita rapidez, vimos voluntários de várias partes do país agindo. Em pouco tempo, haviam sido instaladas em um campo de futebol inúmeras tendas para os desabrigados. Inclusive com atividades para as crianças, refeições, doações de roupas, cobertores e itens de higiene pessoal.

Outros jornalistas começaram a chegar. Eu observava um câmera que filmava uma jornalista que tentava dar a notícia, mas parava de falar quando sentia os tremores que continuavam acontecendo a cada 10 minutos. Se ouvia os choros das crianças a cada tremor.
Tremores que também me assustavam. Ao ponto de lembrar instantaneamente deles, quando hoje estou em algum lugar que sacode, como uma ponte.
Em outra parte da cidade, ouvia os latidos dos cachorros treinados para resgate. Os bombeiros corriam na direção que apontava que ali havia alguém vivo ou um corpo soterrado.

Havia um edifício de estudantes que foi completamente destruído. Ao seu redor, pais, mães, familiares e amigos tentavam ligar desesperadamente para os celulares dos universitários que moravam lá. Um dia após o terremoto, o chefe dos bombeiros havia reunido os colegas na frente desse edifício. Muitas pessoas e jornalistas estavam em volta dele, esperando uma decisão. As buscas tinham sido intensas, mas como os desabamentos continuavam podiam pôr em risco a vida dos bombeiros. Então ele decide cessar as buscas. Há um choro coletivo. E eu participo dele.

Foram vários dias lá. Meu fôlego psicológico estava na UTI.
À noite, ficávamos em um hotel numa cidade litorânea. Inúmeros desabrigados estavam hospedados lá e conversávamos com essas pessoas. Eles se ajudavam e preferiam resolver as coisas no saguão mesmo. De madrugada, se sente um tremor. Tão forte que acorda o meu sono pesado. Mas não há desespero. As crianças não choram. Só há um silêncio de superação.