Por que um álbum de metal é o grande disco da minha vida?

Fui desafiada por mais de um amigo a postar a capa de um grande disco. O fato é que esse desafio caiu como uma luva. Estava há dias pensando em escrever o quanto o álbum Metallica é o grande disco da minha vida. Na semana passada, ele completou 25 anos.

O Black Album, também conhecido assim, apareceu na minha casa em uma fita cassete gravada. Era uma UX-60. Aquela de cor grafite. Ninguém “gastava” uma UX gravando merda. Só podia ter coisa boa ali dentro. Era assim que a gente conhecia músicas novas nos anos 90. Todo mundo se emprestava fitas e discos. Era uma pirataria analógica.

Achei a fita em cima da escrivaninha do meu irmão. Na lateral estava escrito: Metallica. Banda que eu jamais tinha ouvido falar. Peguei a K-7 e perguntei se eu podia ouvi-la. Recebi uma resposta nada entusiasmadora: “pode, mas acho que tu não vai gostar”.

Entre homem de areia

O disco entrou na minha vida como um ser sinistro. O primeiro acorde bateu nos meus ouvidos e me fez sentir um calor no peito. O que estava acontecendo? Meu pensamento gritava: “que troço massa!”. Virei e revirei a fita um milhão de vezes. Viciei. Pra minha sorte, meu irmão já tinha deixado a fita de lado. Preferia curtir reggae.

Triste mas verdadeiro

Fui me tornando cada vez mais fã daquele som. O ruim era usar camisetas masculinas do Metallica. Mesmo elas sendo P, ficavam enormes em mim. Naquela época, não existia camiseta de banda para meninas. Pra minha sorte, a moda nineties era usar tudo folgado.

Mais santo que você

Qualquer um se acha mais santo que um metaleiro. Ainda mais se não for batizado e não tiver uma religião, como eu. Já havia passado por situações constrangedoras por causa disso e consegui piorar as coisas. Mas nada sério. Afinal, não costumava sair aos quatro ventos fazendo o sinal da mão chifrada. Era melhor assim. Dizem que rock é coisa do demônio e blá blá blá.

Os Imperdoáveis

Os gostos dos meus anos de adolescência faziam me sentir diferente. Sempre fui fã de automobilismo, influenciada pelo meu pai que foi piloto de kart. E agora o rock pesado! O tempo passava e a minha prateleira tinha uma coleção cada vez maior de discos e VHS´s do Metallica. Sim, V-H-S. Era o supra sumo na categoria vídeo, daquele tempo. Mesmo acumulando materiais da banda, nunca tinha parado pra pensar no quanto curtia rock e metal. Até o dia em que uma amiga — que costumava vestir camiseta dos Ramones — apareceu com seu primo lá em casa. Eu estava ouvindo Metallica no meu quarto. Não poderia imaginar que o som pudesse ser escutado do lado de fora da casa. Abro a porta e o primo dela pergunta: “- Essa sonzeira é da sua casa?” Respondo, constrangida “-Sim.” “- Tu é metaleira?” Fico sem saber o que responder. Era a primeira vez que me dava conta disso.

Por onde Quer que Eu Ande

Olhares estranhos surgiam sobre mim. Bem menos assustados, hoje em dia, finalmente. Muito espaventados naqueles anos. Eu não tinha só gostos “de menina”. Apesar disso ser bem ultrapassado hoje, não era assim. Era estranho ser metaleira. E como era difícil achar outras mulheres que gostassem da banda! No fundo eu não queria isso. Queria estar curtindo Laura Pausini e Shakira. Apesar de eu ser eclética a esse ponto. Alguns dos meus gostos não são o que os outros esperam do meu biotipo e do meu sexo.

Não pise em Mim

Não concordo com estereótipos e expectativas em função de gêneros e outras identidades sociais. Muitas vezes, eu escondia esses meus gostos. E quando alguém realmente me conhecia, tomava um susto. Essa luta contra mim mesma foi uma verdadeira bobagem. Hoje, eu tento ser quem eu verdadeiramente sou.

Através do Nunca

Pulei inúmeras barreiras até finalmente conseguir ver um show dos caras. Mas antes, tive que passar por diversos episódios que foram verdadeiros baldes de água fria. Morava no interior do Rio Grande do Sul e em 1999 eles fizeram um show na capital gaúcha. Que sorte, você imaginou. Não. Fazia dois anos que havia me mudado pra Manaus. Minha família tinha ido à falência. Gastar com ingressos e transporte? No way.

Nada mais Importa

Eles voltariam em 2003! Eu já estava com o ingresso comprado para o show em São Paulo. Eu ia ver os caras! Havia voltado para o Sul e iria até conseguir uma carona de avião com um amigo que era piloto. A banda alegou cansaço físico e mental e cancelou todos os shows da América Latina. Fiquei desolada. Até porque na outra semana eles voltaram a fazer show no Japão.

De Lobo e Homem

Lobo gosta de noite e foram muitas — depois de adulta e aceitando os meus gostos — de shows de bandas cover incríveis que me faziam estar sempre perto da banda. Coisa que continuo fazendo. No último show cover me surpreendi com a quantidade de mulheres. Algumas continuavam cantando as músicas até no banheiro. Tenho quase certeza que essas metaleiras que aparentavam a minha idade, tinham muita vontade, mas também não ostentavam essa simpatia pelo metal, na época. Assim como eu, deviam ficar ouvindo a banda trancafiadas no quarto ou em grupos de poucos amigos que não curtiam as Spice Girls.

O Deus que Falhou

Eu culparia alguém, um ser ou sei lá o quê, depois de tantas tentativas frustradas? Não. Não faria isso. Sou agnóstica e também não costumo culpar ninguém pelas coisas. Mas, como estava difícil ver um show do Metallica! Voltaram para o Brasil em 2010 e um dos shows seria em Porto Alegre! Era a hora?

Meu Amigo da Miséria

Que falta de sorte. Eu estava morando na Itália. Não foi dessa vez. De novo.

A Luta Interior

O fato de gostar tanto da banda me fez não desistir de ir a um show. Em 2013, finalmente eles estavam na minha frente no palco do Rock In Rio! Não chorei. Fiquei atônita! Em 2015, voltamos a nos encontrar no mesmo lugar. Ganhei os ingressos do meu marido. Foi uma surpresa que ele guardou por meses, enquanto eu insistia para irmos mesmo a gente estando sem grana. Mal a cena do filme “The Good, The Bad And The Ugly” que abre o show da banda há décadas começou a passar no telão e as lágrimas já escorriam no meu rosto. E escorreram muito mais quando tocaram Nothing Else Matters, música do álbum em questão. Foi com uma cover dela que entrei no meu casamento, usando um vestido com tachas, claro. Não bastando isso, no meio da festa, meu noivo tocou de surpresa junto com a banda Wherever I May Roam, também do álbum. E nesse clima, a festa teve até roda de pogo.

Será que consegui explicar o porquê desse álbum ser tão importante pra mim?

E você, tem algum grande disco da sua vida? Me conta nos comentários.

P.S: não sei se notaram, mas os subtítulos deste texto são os nomes das músicas do álbum Metallica \m/.

PS2: desafio os meus amigos Luciano Seade, Gabriel Schmitt, Andreas Müller e Daniel Dutra Cançado a também postar a capa de um álbum e contar o porquê.