A saia rodada

Pensei um dia inteiro naquele cretino. Descrevo isso já com a pergunta das amigas quando ouvem frase parecida ecoando na minha cabeça. "Qual deles?".
Não acho um crime uma mulher conhecer um homem só (ou uma mulher só) na vida mas, vejam bem, gosto da liberdade de conhecer alguns vários, criar possibilidades, ousar viver e experimentar.
Voltando ao cretino em questão, passo mais horas no dia pensando em como surpreende-lo do que fazendo qualquer outra coisa, porque qualquer outra coisa acaba incompleta. Gosto quando ele, numa revolta contra meu esquerdismo, diz o absurdo "antes dos trinta você se descobre de direita". Penso logo em como prevejo que antes dos cinquenta ele se descobre apaixonado por essa mistura de caos que digita largada no chão de uma sala de aula. Será tarde, repito. Talvez haja ainda uma esperança de me livrar disso, com tantos amores meio vividos por ai, como o escritor de quinta ou o esportista de toda terça... Acontece que, de tão surrada e calejada, aprendi a ligar o alerta. Alguns desses amores não vão passar de uma hora, duas talvez, envolvida em lençóis de um motel barato, rindo e gemendo alto, como num ato de liberdade. Mas não demora muito uma fala ou um ato os denuncia, não demora muito esse ou aquele encanto desata. Acaba, depois do banho, restando apenas a cordialidade e a satisfação, ou um beijo de despedida com um "até logo, Honey".
Vez ou outra o alerta não dispara e eu fico bem puta com isso, quando me deixo levar por um sorriso, um carinho, um beijo na mão... Sexo não precisa ser um ato de prazer sem afeto, sempre digo, mas me surpreendo quando o afeto chega. Devo ter sérios problemas, mas enquanto a terapeuta não volta da licença, eu vou sobrevivendo como meus poucos textos.