Primeiro Andar

Aline não esperava conhecer ninguém da forma como conheceu Cauê: numa chuva gostosa que não cessava.
Prendeu a respiração quando viu a bateria acabar antes da mensagem de "estou chegando" ser enviada. A ansiedade tomava conta e provocava pequenas revoluções dentro do seu estômago, borboletas dançavam livres dentro dela. Enfim encontrou uma gelateria ("por que diabos não chamam logo de sorveteria, Santo Deus?") e pediu toda sem jeito para que a moça colocasse o carregador na tomada para que pudesse avisar o amigo Desconhecido onde estava. Pensava assim, sem graça, sobre a relatividade do primeiro encontro e como esse termo é errado em tempos de internet, Tinder e Whatsapp. Era quarta, poderia ser Quinta, mas já vinham se encontrando desde sexta passada, todos os dias no horário do almoço desde aquele Match dado por acaso no aplicativo bonitinho. Conseguiu ligar o celular e, com certa urgência, procurou o contato ali na agenda.
- oi, acabou a bateria, onde está? 
- sem problemas, meu anjo, me fala onde você está que passo aí num instante.
- sabe a gelateria na esquina da praia com o canal 4? Estou aqui. Mas sem guarda chuva...
Como quem se lembra da existência de algo vital, ele se lembrou de um ponto importante que conversaram num dos almoços:
- Respira e se distrai, prometo não demorar.
Aliviada, Aline já respirava mais contente.
- Obrigada, te espero...
Encolhida ali naquela primavera com cara de outono, ela cantava baixinho a música da Clarice (Falcão e não Lispector, apesar da paixão por ambas)...

"Se esse bar fechar, ele não vem
 Se esse bar fechar mesmo se ele vier
 Não vai ter mais ninguém..."

Mil medos tomaram conta dela. E se ele não viesse? E se acontecesse algo e ele se atrasasse?

"Se esse bar fechar, eu fico só 
 Se esse bar fechar todos aqui
Vão me olhar com essa cara de dó..."

Pensou na moça que servia sorvetes numa sorveteria chamada de gelateria, pensou na quantidade de sorvetes que precisaria tomar para esquecer qualquer atraso. "Se fosse um bar seria mais fácil, de certo". Sentou-se olhando os sabores no cardápio, qual tomaria primeiro? Chocolate! Chocolate acalma tudo. "Com esse preço deveria vir igual tequila em dia de quinta: pede um leva dois".
- Por que não disse que queria sorvete, eu viria mais apresentável pra te acompanhar aqui...
Levou um susto, pulou da cadeira e quase se desequilibrou. Ele a segurou com cuidado, olhou nos olhos que tinha visto antes por foto e elogiou.
- Aline, você é linda!
- Obrigada! - sentiu-se corar e ficar como o sorvete de cereja que cogitava pedir - vamos?
- Sim, claro!
Cauê era quase da mesma altura de Aline (que já não tinha muita), então ela olhava os pés encharcados arrependida de ter calçado logo o sapatinho preto com salto. Mas já era tarde, estava alguns centímetros mais alta que ele e sua atenção estava toda voltada a encontrar uma maneira confortável de andar abraçada naquele cara que a ganhou no primeiro sorriso. 
Chegaram na quitinete arrumada demais e, enquanto Cauê organizava no banheiro as blusas molhadas, Aline se deliciava analisando a prateleira de livros: Dickens, Darwin, Pessoa, Kardec...
- Meu Deus! Você tem esse, não acredito...
- Esse o quê? - saiu curioso do pequeno banheiro e nem precisou de resposta - eu amo esse livro..
- Eu também! O Retrato de Dorian Grey é incrível, já viu o filme? 
- Não...
- Eu gostei bastante
Ele se aproximava devagar observando cada movimento entusiasmado que ela transmitia.
- Eu também gostei bastante...
- Mas você disse que não assistiu!
- Eu não estou falando do filme, Aline...
Ela entrava no jogo:
- Que filme?
Como se movidos por uma força além do que podiam explicar, cada centímetro de um chamava pelo outro, cada beijo soava como um sopro divino. Sentiam como se estivessem em outro lugar. Não saberiam descrever o que houve, mas por algumas horas os corpos foram um só corpo. Não ouviam nada além de ssussurros e foi uma pena — na verdade não — os vizinhos não poderem dizer o mesmo, todo mundo escuta tudo no primeiro andar, não é?

Após o clímax que todo o primeiro andar pôde testemunhar, só cabia a Aline e Cauê desabar de exaustão sobre a cama de solteiro completamente desfeita e bagunçada. 
O livro de Oscar Wilde entre as roupas no chão, um baseado na mesa de centro e dois corpos inertes faziam parte de um cenário que encantaria qualquer um com o mínimo senso artístico.
- Você gosta?
- Do quê? - Aline mal abriu os olhos para entender - Quero...
Conversaram sobre a vida, taoísmo e física quântica, cinema, teatro...
- Anota aqui, Aline, anota que eu não esqueço de assistir esse depois...
- Posso anotar meus outros preferidos também, se quiser...
- Quero, Sim…
E foi chegando perto para continuar uma série de outros beijos ainda mais urgentes. Sentiam como se todos fossem o primeiro, e o primeiro sempre traz a entrega. 
- Eu não consigo parar de olhar pra você, e isso me faz não parar de te beijar...
- Eu não me incomodo nem um pouco com isso, moço...
Foram noite adentro assim, Aline perdera a voz duas ou três vezes e quase alcançou o Olimpo outras tantas. Pensou ter visto Afrodite no quarto entre uma ou outra parada para beber água e acender um cigarro. Olhava a cidade pela janela e não se sentia perdida como antes. Estava ali, e qualquer um a chamaria de maluca por isso, sendo a garota que cede ao primeiro encontro... Então seus pensamentos se tornaram fumaça junto com o cigarro apagado no cinzeiro e o pedido ecoava pelo quarto.
- Aline, dorme aqui. Comigo

*Crônica -Conto escrita enquanto ouvia Oitavo Andar (Clarice Falcão)