Brasileiras iniciam série de entrevistas com empreendedoras dos 5 continentes

Por Thais Polimeni

Empreendedorismo e Empoderamento feminino são assuntos discutidos além do universo acadêmico. Blogs, mídia de massa e canais do Youtube têm abordado ambos os temas de uma forma que começa a ficar natural discuti-los em mesas de bar ou reuniões informais.

Frequentemente, nas reuniões do ANE, apresentamos as dificuldades que cada uma de nós, empreendedoras, enfrentamos apenas por sermos mulheres e nos indagamos se isso acontece apenas no Brasil ou se são dificuldades resultantes da desigualdade de gênero no mundo.

Em uma das minhas pesquisas para o Cult Cultura, plataforma digital da qual sou editora, conheci o projeto “F♀unders”, liderado pelas brasileiras Fernanda Moura e Taciana Mello, que vivem na Califórnia, próximo ao Vale do Silício, a meca do empreendedorismo:

Há quase 3 anos, Fernanda e Taciana se mudaram para os Estados Unidos e começaram a se envolver naturalmente com iniciativas ligadas ao empreendedorismo. Depois de alguns experiências, elas criaram o “the Girls on the road”, cujo primeiro projeto é o F♀unders Project. Seguindo a linha do universo feminino e associando ao perfil empreendedor de identificar problemas a fim de buscar soluções, Fernanda e Taciana observaram que no Vale do Silício, o lugar mais inovador e empreendedor, havia bem menos mulheres do que homens empreendedores:

“A menos que fossemos em eventos destinados a mulheres empreendedoras, quase não encontrávamos mulheres em pitches de negócios”, explica Fernanda .

Assim surgiu o “F♀unders Project”, a primeira iniciativa do “the Girls on the road” com o objetivo de estimular o potencial feminino e contribuir para a igualdade entre os gêneros.

F♀unders” irá, durante um ano, entrevistar empreendedoras organizações de apoio ao empreendedorismo feminino nos cinco continentes, em 20 países. Com este material, será produzida uma série em vídeo que pretende inspirar e apresentar novas modelos femininos a fim de reforçar a mensagens que mulheres são extremamente capazes e que deveriam se tornar empreendedoras não apenas porque precisam, mas principalmente porque querem :)

O trabalho do F♀unders já começou com entrevistas nos Estados Unidos e Canadá. Em setembro, serão realizadas as entrevistas na Ásia. O Brasil está programado para janeiro de 2017 e, até o momento, já foram feitas 60 entrevistas!

Dessa vez, Fernanda mudou de lado e concedeu uma detalhada e interessantíssima entrevista para nós, do ANE. Veja abaixo e inspire-se!

ANE: Vocês decidiram criar o “F♀unders” para inspirar as mulheres a empreender por meio de modelos de empreendedoras. Pelo que vocês têm pesquisado, há outros motivos pelos quais as mulheres empreendem menos que os homens, além da falta de modelos femininos no empreendedorismo?
FERNANDA MOURA: Sim. Um deles é a expectativa de que a mulher tenha que desempenhar sozinha outras atividades. Criar filhos, gerenciar a casa, cuidar dos pais são apenas alguns dos papéis que são considerados 100% femininos em muitas culturas. Essa pressão e realidade as impedem de se dedicarem da mesma forma que os homens ao empreendedorismo e carreiras executivas.

Outro motivo: os homens têm uma rede social muitas vezes mais forte que mulheres. Pelo que temos ouvido, homens normalmente discutem na mesa de bar, entre outras coisas, seus desafios como empreendedor, e é um ambiente acolhedor para trocar ideias e achar soluções. Mulheres, pensando de forma geral, se sentem mais isoladas nesse quesito porque não participam de happy hour na mesma regularidade que homens quando têm o filho e a casa esperando por elas.

Por último, também há a questão da auto-confiança. Mulheres se duvidam mais que homens para dar o primeiro passo. Esse comentário tem sido recorrente nos 3 países que já visitamos e aparece fortemente em relatórios que lemos para delinear o projeto.

ANE: Aqui no Brasil, o movimento feminista tem chamado a atenção da mídia e causado muita polêmica, também. Vocês se consideram feministas? O que entendem por feminismo?

Fernanda Moura

FERNANDA MOURA: Nós acreditamos que hoje em dia há algumas posições bastante radicais sobre feminismo. Na nossa opinião, se apoiar e promover toda e qualquer iniciativa que empodere as mulheres e reforce a mensagem de que mulheres e homens são igualmente capazes, sim, somos feministas.

Em nenhum momento nosso projeto quis estabelecer uma luta de gêneros, pelo contrário. Entendemos que, somente se trabalharmos juntos, conseguiremos eliminar a desigualdade entre os gêneros.

Nosso objetivo é mostrar que mulheres são capazes e nossos projetos sempre terão o intuito de avançar a condição da mulher e que, mulheres e homens, um dia, não tenham mais que falar sobre isso porque não será um problema. Mulheres avançando, mas não em detrimento do homem. Juntos, faremos uma sociedade melhor para todos.

ANE: Quais instituições/ organizações de fora do Brasil vocês acreditam realizar boas ações voltadas para o empreendedorismo feminino?
FERNANDA MOURA: Embora o projeto ainda esteja no início, já conseguimos identificar algumas iniciativas interessantes e relevantes.

O programa Empower Women, da ONU Mulheres, é um deles. Há toda uma plataforma com conteúdo e recursos em vários idiomas, incluindo português, para mulheres que já empreendem ou pensam em empreender.

Encontramos também uma comunidade bastante empreendedora e unida em Boston, liderada pela organização SheStarts (Nancy Cremins e Liz O’Donell), que tem sido capaz de conectar mulheres e criar um ambiente próspero para que elas troquem ideias, conexões e se desenvolvam. O conceito é muito simples: ajudar nos principais desafios que mulheres enfrentam, como conexões, mentoria e acesso a outros recursos como investimento.

No Canadá conhecemos a founder e CEO da SheEO, Vicky Saunders, que tem uma proposta ambiciosa: mulheres investindo em mulheres.

Outra organização fazendo um trabalho incrível é a Endeavor, que entrevistamos no México, mas tem uma atuação global.

Uma outra organização que nos chamou atenção no México foi a CREA, que faz um trabalho de mentoria com mulheres de baixa renda e com empreendimentos artesanais. A CREA traz conceitos de negócios e empreendedorismo no dia-a-dia dessas mulheres para que elas possam se desenvolver, além de suporte onde se sentem empoderadas e capazes de tirar suas dúvidas sem medo de que serão ridicularizadas. Nesse ambiente, acontece uma mudança de comportamento no qual se sentem mais seguras para conquistar outros ambientes.

ANE: Como está sendo feita a curadoria das empreendedoras a serem entrevistadas?

FERNANDA MOURA: A gente tem uma apoiadora do projeto nos ajudando no Brasil, Miriam Keller, e tem feito um levantamento preliminar sobre os países. Identifica associações e organizações que fomentam o empreendedorismo além de identificar empreendedoras naquele ambiente. Estamos também buscando pelo LinkedIn e recebendo indicação de empreendedoras e organizações locais, o famoso boca-a-boca.

Queremos trazer um conteúdo mais diverso possível pois acreditamos que mulheres se sentirão inspiradas pela variedade de histórias e backgrounds que traremos.

Buscamos mulheres de indústrias, formação e idade variadas. Também buscamos empreendedoras mais jovens no sentido de anos de experiência, não idade. Será importante trazer exemplos de mulheres já bem sucedidas há anos, mas nosso foco é trazer mulheres mais próximas da realidade de quem está ainda começando.

ANE: Quais ações vocês acreditam que as mulheres podem tomar para incentivar que mais mulheres empreendam?
FERNANDA MOURA: Falar mais sobre o tema e acreditar que empreendedorismo é, sim, uma opção viável de carreira para mulheres; Pedir ajuda e buscar informação de como colocar sua ideia em prática. Essas ações, que já têm sido estimuladas por diversas organizações, serão fundamentais para que mais mulheres se tornem empreendedoras.

Outra ação é que mulheres investidoras busquem e invistam em negócios de mulheres, além de também comprar produtos de empresas lideradas por mulheres.

ANE: Para finalizar, quais ações vocês acreditam que os homens podem tomar para incentivar que mais mulheres empreendam?
FERNANDA MOURA: Há muitas ações, dependendo da função que ele desempenhe. Por exemplo, maridos podem dividir as responsabilidades na criação dos filhos e gerenciamento da casa e apoiar a iniciativa empreendedora de suas companheiras.

Servir como mentores de mulheres e, principalmente, garantir que sempre hajam mulheres “à mesa” para discutir sobre os negócios, ideias e visões de futuro.

Hoje, o F♀unders é mantido por recursos próprios, por verba arrecada através de corwdfunding (já finalizado) e com o apoio de importante empresas parceiras: a assessoria de imprensa Mosaike, a produtora Mirabilis e a At Home Creation, que auxiliou na parte visual do projeto. Todas as empresas fundadas por mulheres!

Se você é uma empreendedora ou gostaria de indicar uma para o F♀unders Project, envie um e-mail para hello@thegirlsontheroad.com!

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