Leitura: A Náusea — Jean-Paul Sartre

P.S: Que tal ler esse texto com uma música de fundo? Clique ali e ouça Ella FitzGerald. Você vai entender o porquê ao longo da resenha ;)

Tinha certo receito de ler qualquer livro de Jean-Paul Sartre, já que sempre se fala do autor com tal seriedade (que é válida) e com um tom de “inatingibilidade” que isso me influenciou. Em casa, tenho “A Náusea” e “O ser e o Nada”, mas não tinha pretensões de ler qualquer um dos dois ainda este ano.

Porém, desde que escrevi e publiquei o conto “A fumaça da xícara de café”, me indicaram a leitura da Náusea, que foi o primeiro romance filosófico de Sartre. Assim, pela insistência alheia (principalmente), decidi encarar a obra. Com uma leitura de cerca de uma semana, me surpreendi de maneira positiva por causa de diversos aspectos.

O primeiro deles se deve a minha ignorância sobre o livro (enfatizo esse fato), já que não sabia que se tratava de um romance. Sempre pensei que fosse algo mais sobre filosofia, uma obra de teoria filosófica... Portanto, assim que comecei a ler e percebi que seria algo diferente do que imaginava, já senti o arrependimento pelo “medo” — que é uma maneira de sentir preconceito, afinal. (Uma dica? Encare obras clássicas ou aqueles títulos que também te causam esse medo. Quem disse que você não vai entender, sentir e gostar?).

Outro fator que me surpreendeu foi de que Sartre começou a escrever “A Náusea” com apenas 26 anos; ou seja, sua genialidade no modo de narrar a história, de descrever as percepções da personagem central, de forma tão verdadeira, começou ainda jovem. A minha admiração foi ainda mais intensa por saber que, na minha idade, ele estava revolucionando o pensamento, a filosofia.

Ademais, a leitura se mostrou muito mais fluida do que esperava — mesmo sendo, sim, bastante intensa e profunda, exigindo algumas pausas ou releituras de parágrafos. Claro que, aqui, não me refiro à velocidade, até porque isso não importa muito, cada leitor tem seu ritmo, seu tempo e seu modo de conviver com uma obra. O que quero dizer é sobre a facilidade de avançar nas palavras e sentimentos do narrador — assim como nas descrições longas de lugares e pensamentos.

Além disso, mesmo se você não souber muito sobre o Existencialismo ou o Humanismo, conseguirá captar suas essências através de diálogos entre personagens ou reflexões do protagonista.

O livro foi escrito por Sartre durante 5 ou 6 anos, sendo publicado um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial, ou seja, em 1938. Esse contexto histórico-social tem influência em A Náusea, assim como em toda a obra de Sartre, que foi um filósofo francês existencialista (e um dos fundadores do partido comunista em Paris). Aliás, ele próprio participou da guerra como meteorologista. Para saber mais sobre ele, sugiro esta leitura.

A história

O livro traz como protagonista o historiador Antoine Roquentin de cerca de 30 anos. Bastante viajado, está vivendo na pequena cidade de Bouville (fictícia) para onde se mudou para estudar a vida do marquês de Rollebon, uma figura pitoresca da França que vivera no século XVIII.

Então, o historiador está escrevendo uma biografia sobre o tal marquês quando começa a perceber algumas “sensações”, alguns “estranhamentos” — a que chama de náusea. Nesses momentos, somos levados a sentir e a perceber tudo o que cerca e o que se passa internamente com Antoine com a descrição dos objetos, por exemplo, ou pessoas que estão à sua volta.

É muito interessante como ele consegue desenhar esse cenário externo e interno. Fui completamente levada a Bouville a cada página folheada. Roquentin e sua náusea trazem a criticidade acerca do estilo de vida daquela época, dos burgueses e do proletariado, enfim, das pessoas que causam esse sentimento de repulsa à humanidade no protagonista.

Assim, acompanhando a percepção (bastante negativa) sobre a vida, a existência de tudo e de todos à sua volta (incluindo coisas, objetos), entendemos que o historiador não consegue encontrar sentido para nada, não acredita em alguma explicação ou significado para a existência de nada. Ele considera, desse modo, a existência como uma espécie de absurdo. Inclusive, ele discute bastante sobre isso com outra personagem, o Autodidata, um sujeito humanista, que vive na biblioteca municipal lendo todas as obras “por ordem alfabética”.

Ao contrário de Roquentin, o Autodidata afirma que “devemos amar todos os seres humanos” (não vou dar spoilers, mas o encerramento dessa personagem é de arrepiar…). Enfim, os dois representam uma reflexão/quebra de paradigmas de um e do outro lado, sendo que (no meu ponto de vista, que fique claro), Sartre utiliza a personagem do Autodidata para debochar, de certa maneira, o Humanismo. Ele coloca seus seguidores como sendo “inocentes”, “puros” ou “pouco vividos”. Isso porque a maneira com que o protagonista percebe a outra personagem é inferiorizando-no, como se o outro não tivesse capacidade de entender o existencialismo.

Sobre a biografia que está escrevendo, em certo momento da obra (que é uma espécie de diário), Roquentin perde totalmente o encantamento pelo marquês e, assim, não consegue mais seguir com seu trabalho. É durante esse processo de desistência, que é prolongado, que o historiador acaba repensando também na sua própria existência que, assim como a da personagem estudada, seria ilógica.

Há também, ao longo do livro, várias passagens em que o protagonista cita uma ex-namorada, a Anny, que eu percebi como sendo uma referência do seu passado (ou deste período que ele acaba desconstruindo, desacreditando…). Antoine já foi apaixonado por esta mulher e, em certo momento da história, recebe uma carta (bastante seca, por sinal), em que ela pede para encontrá-lo dali alguns dias em Paris.

Bem, até o momento do encontro, a gente fica na dúvida — ou, pelo menos, eu fiquei — se ainda há chances de eles voltarem ou se ele é realmente apaixonado por ela. O que acontece? Ela aparece “diferente”, dizendo sobre como “sobrevive a si mesma” e de como “ele é uma referência para ela, porque nunca muda”.

De certa maneira, Anny — e seu modo peculiar de lidar com relacionamentos — mostra que tudo terminou, que eles não são nada além do que uma ilusão de aventura do passado (será? Entendi assim). Ao mesmo tempo, a ex-namorada e esse encontro fazem com que Roquentin aja, que decida, de vez, deixar Bouville e voltar a Paris. Na verdade, para mim, esse é um dos únicos momentos em que o protagonista parece mais firme, menos passivo. Senti um pouco de angústia com o modo com que ele não reage a nada. Claro, isso é proposital!

Um dos detalhes que mais me chamou a atenção em “A Náusea” é a relação de Antoine com uma música de jazz chamada “Some of These Days”, de Ella Fitzgerald— por isso sugeri que você ouvisse a música enquanto fazia esta leitura.

Quando escuta o disco, ele deixa de sentir ou perceber a náusea. Ela que não está nele, mas em tudo: desde o suspensório de um rapaz, até na xícara de café que toma, na humanidade em geral… Na minha percepção, a música — ou a arte — consegue, por alguns momentos, dar sentindo à existência, traz significado ao menos enquanto acontece, enquanto existe.

Alguns críticos que li dizem que é como um refúgio, como algo que “engana”, que disfarça o próprio fato da existência e de seu vazio: algo que o próprio personagem explica na passagem “é preciso sofrer com compasso”. Por fim, esse refúgio na música sendo algo tão inerente à humanidade que nem o próprio Roquentin, no auge de sua náusea sobre tudo, sobre o ser humano, consegue escapar…

Aqui, como leitora, gostaria de fazer uma pausa e colocar a minha própria reflexão — não sei se entendendo, discordando ou concordando com o que esta obra defende (e se ela defende algo!). Mas, pensando sobre isso vejo a referência à arte mais do que refúgio ou algo tão humano, mas, sim, na possibilidade de transgredir-se. De dar, assim, significado ou sentindo para a vida, para a presença no mundo.

O que quero dizer é que ainda acredito muito na literatura, na música, na dança, no teatro, nas artes plásticas como uma maneira de transgressão — de tornar-se maior. É a arte que pode “nos salvar”, trazendo sentido mesmo ao que, no cotidiano, pareça totalmente aleatório, insignificante, absurdo. Por isso, adorei o fim do livro, quando o historiador pensa em escrever um romance.

“Um romance. E haveria pessoas que leriam esse romance e diriam: ‘Foi Antoine Roquentin que o escreveu, era um sujeito ruivo que estava sempre nos cafés’. E pensariam em minha vida, como eu penso na dessa preta [em referência à cantora da sua canção preferida]: como em algo precioso e meio lendário. Um livro. Naturalmente, no início seria um trabalho tedioso e cansativo; não me impediria de existir nem de sentir que existo. Mas chegaria o momento em que o livro estaria escrito, estaria atrás de mim, e creio que um pouco de claridade iluminaria meu passado. Então, através dele eu pudesse evocar minha vida sem repugnância.”

Quando li isso, não deixei de pensar que A Náusea foi o primeiro romance de Sartre — e o quanto este trecho também não diz sobre ele e todos os outros escritores… Como disse Pessoa “o poeta é um fingidor/finge tão completamente que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”.

Por fim, deixo destaque para algumas passagens que conversam com a teoria do existencialismo, que explicam sua ideia. Em certo momento, o personagem diz que não quer pensar, não quer pensar, não quer pensar, mas que o próprio fato de não querer pensar já é pensar. Ora, ele não quer pensar para não existir. Ou não sentir que existe. Pois, como disse Descartes, “penso, logo existo”. E quem nunca desejou isso ao menos uma vez na vida?

Poderia falar sobre esse romance muito mais. Levantar tantas reflexões como ele foi capaz de fazer comigo. Mas, caro leitor, sugiro que você se entregue e encare a náusea. Acho que é preciso, ou não. No mínimo, é recomendável.