Leitura: A Bela e a Fera

Versão original, clássica e curiosidades!

O filme tão aguardado do ano estreia hoje!

Se você circulou pela internet nos últimos meses deve ter visto pelo menos uma vez alguém comentando e compartilhando suas expectativas, o trailer e outros detalhes para lançamento do filme “A Bela e a Fera”, com a participação de Emma Watson e Dan Stevens, nos papeis principais, além de um grande elenco. Estreia, aliás, que acontece nesta quinta-feira (16). Fãs da princesa da Disney, que se encantaram pela história de amor entre uma jovem leitora e um príncipe que, a princípio, aparece como uma fera amaldiçoada em seu castelo. Quem não se lembra da animação?

Ilustração de Anne Anderson (e essa fera???)

A estreia do filme tão aguardada promete ser bastante fiel à versão de 1991, incluindo alguns detalhes que já “causaram” em alguns países — como a cena gay entre Gaston e um de seus companheiros (a conferir!), que foi motivo de tentativa de veto na Rússia, por exemplo. Enquanto o longa não lançava, decidi buscar na literatura a versão original da história e, assim, acabei comprando a edição linda da editora Zahar que contém tanto a versão original como a clássica, ou seja, a mais conhecida até os dias de hoje.

As duas leituras foram interessantes — fazia tempo que não tinha contato com Contos de Fadas ou algo assim. De maneira bastante resumida, posso dizer que, em ambas, você encontra referências da época (estamos falando da segunda metade do século XVIII): com estrutura familiar grande, a vida rural, uma linguagem formal entre as personagens, a idealização de uma mocinha doce, linda e inteligente…

Também não podia faltar a presença de “vilões” que, no caso, são as irmãs invejosas de Bela (sim, explico isso mais para frente) que se contrastam com a filha boa e generosa — além de linda, pois daí vem o apelido, claro. Sem contar com o enredo em si, que é a de um romance romântico de final feliz — cheio de boas descobertas após muito penarem, tanto a mocinha quanto o mocinho.

E esse história toda surgiu da cabeça de uma mulher, escritora em pleno século 18!

Porém, a versão original, escrita por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (Madame de Beaumont) em 1740, é bem mais longa do que a versão clássica de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve (Madame Villeneuve), de 1756. Desse modo, e por outros detalhes na história, a primeira escreve para adultos, enquanto a segunda se dirige claramente às crianças e às preceptoras (afinal, Villeneuve foi bastante envolvida com o ensino de jovens desde que era bastante nova).

Literatura X Disney

Assim como tantos outros filmes da Disney, adaptados de contos de fadas seculares, há adaptações nas histórias. Como você deve imaginar, assim acontece com “A Bela e a Besta” — ou, a Fera.

Nas duas versões, de Madame Beaumont e Villeneuve, Bela é uma dos seis filhos de um pai comerciante. Eles vivem bastante bem, em um ambiente urbano, com dinheiro e riquezas. Porém, em certo momento, ele perde tudo e, voilà, eles têm de se mudar para uma casa de campo. As duas irmãs da mocinha não aceitam o trabalho em casa ou na agricultura e, por isso, ela é a responsável por fazer tudo no lar (isso te lembra outra história? Pois é), enquanto os três irmãos cuidam do “trabalho pesado” (século 18 né, amigos).

A rosa, que na animação da Disney não recebe uma explicação pela sua existência, é ponto-chave da história no livro. E, bem, é o pai de Bela quem a acha e, por causa da flor, acaba conhecendo o monstruoso dono do castelo — para quem “entrega sua filha”.

É claro que a Disney não vai colocar isso em seu plote, mas na versão original a autora dá referências sexuais para a “prisão” da futura princesa, já que a Fera a pergunta todos os dias se ela deseja ir se deitar com ele, o que significaria seu casamento consumado. Ela rejeita (e aqui, alguns críticos abordam a questão do contato entre a jovem e a dimensão animalesca e fantástica do amor).

Ilustração de Walter Crane (tem na edição da Zahar!)

Outra diferença interessante é que, ao contrário da animação, os grandes amigos de Bela no castelo não são os objetos enfeitiçados — Lumière e Cogsworth não aparecem!, mas sim macacos e pássaros. No feitiço, que no livro é feito por uma fada e não por uma bruxa má, os serviçais se tornam estátuas.

Ah! Se decidir ler o livro, se prepare para um desfecho semelhante ao do filme, só que com detalhes bastante diferentes. Sim, é isso.

P.S.: o amor de Bela pela leitura é bem mais enfatizado na animação da Disney, o que achei maravilhoso! Uma princesa que gosta de ler é um avanço, né?

“Noivos animalescos” na literatura

A apresentação de Rodrigo Lacerda, nesta edição, é imperdível. Aliás, tanto quanto as obras em si. Digo isso porque ele aborda a condição do “monstro” na literatura contemporânea — dando-nos luz a outros muitos exemplos do subgênero específico a que os ingleses chamam de “animal bridegrooms”, ou “noivos animalescos”.

Não é só a Fera, amigos: há diferentes tipos de histórias de amor que acontecem do encontro do humano (Bela) com o poder ambíguo, assustador e fascinante do mundo fantástico (Fera). Nesses contos, lendas ou romances, o “monstro” geralmente é uma metáfora sobre o lado selvagem do ser humano, aquele que “não podemos controlar”.

Talvez você já tenha ouvido falar de que a personagem da Fera foi inspirada em fatos reais. Pois é, a suspeita de uma “Fera de carne e osso” vem do caso histórico de Pedro González (ou Petrus Gonsalvus), um espanhol nascido em 1537 que tinha a “síndrome do lobisomen”, uma mutação genética rara chamada hipertricose. A doença causa o crescimento anormal dos pelos no rosto e em todo o corpo, exceto na palma das mãos e nas solas dos pés. Como você pode imaginar, em pleno século XVI, um problema como esse era visto como uma aberração. Muitas pessoas com deficiência eram vendidas e exploradas em shows e circos.

Petrus Gonsalus teria inspirado a história da Fera?

O caso de Petrus foi um desses. Ele foi vendido ao Rei Carlos V e, depois, doado ao rei Henrique II, que morreu e deixou a rainha viúva Catarina de Médici com “a herança”. A fim de “fazer um experimento genético”, ela, então, casou o “monstro” com a filha de um dos serviçais que também era chamada Catarina. Nos relatos históricos, dizem que a jovem era a “mais bela de todo o séquito real” e não sabia que estava se casando com a “Fera”. Até onde se sabe, o casamento acabou virando história de amor (com um final não muito feliz).

Autoras e suas excentricidades

Outro fato muito curioso que encontrei na leitura da obra foi a história das duas escritoras, ambas francesas. Elas parecem ter sido mulheres incríveis: à frente de sua época. Viveram histórias de amor, se casaram mais de uma vez, pediram separação em pleno século XVIII. E, claro, muitos apontam a possibilidade de terem “sido prostitutas” para suas sobrevivências. Bem, não podiam falar outra coisa de mulheres com liberdade (se ainda dizem isso até hoje…). Vai saber? O ponto é que achei interessante compartilhar esse grande detalhe com aqueles que já leram ou pensam em ler “A Bela e a Fera”: busquem saber mais sobre as duas, vale a pena.

Madame Villeneuve

Nascida em Paris em 1685, Villeneuve pertencia a uma família protestante chamada Barbot, que tinha bastante renome no país e vivia na comuna de La Rochelle. No ano de 1706, ela se casou com um militar de infantaria, membro de uma família aristocrática de Poitou — mas o casamento só durou seis meses, quando ela pediu o divórcio e a separação dos bens. Há registros de que os dois tenham tido uma filha, porém não se sabe se ela sobreviveu. Aos 26 anos, tornou-se viúva e, então, foi morar na capital francesa.

Olha que coisa linda: ela começou a escrever em 1730, com mais de quarenta anos. Neste período, ela teria um relacionamento amoroso com o dramaturgo mais famoso da época, chamado Crébillon. Não se sabe ao certo, mas eles teriam sido marido e mulher até a morte da escritora, em 1755.

Barbot é particularmente lembrada pela história original de “La Belle et la Bête”, que é a variante conhecida e a mais velha do conto de fadas. Ela está escrita em sua “La jeune américaine, et les contes marins” (O jovem americano e suas histórias do mar).

Madame Beaumont

Com a vida amorosa “conturbada” como a de Villeneuve, a responsável pela versão clássica — que teria inspirado a animação da Disney e outras versões para teatro — nasceu em Rouen, em 1711, e morreu em 1780. Ela perdeu sua mãe quando tinha apenas onze anos. Depois disso, ela e sua irmã mais nova foram educadas por duas mulheres ricas, entrando na escola de um convento. Depois disso, ela conseguiu uma posição de prestígio como professora de canto para crianças na Corte do Duque de Lorena, Stanisław Leszczyński, em Lunéville.

Seu primeiro casamento foi em 1737 com o bailarino Antoine Malter. E, assim como a outra escritora, se casou pela segunda vez, mas não se sabe muitos detalhes. Outra coincidência: ela também teve uma filha, chamada Elisabeth by Beaumont.

Em 1748, deixou a França para se tornar governanta em Londres. Nessa época, escreveu vários contos de fadas, entre eles uma versão abreviada de “A Bela e a Besta”, adaptado do original de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve. Depois de uma carreira editorial bem-sucedida na Inglaterra, deixou o país em 1763 com a filha e o genro.

Seu primeiro trabalho, o romance moralista “O Triunfo da Verdade”, foi publicado em 1748. Ela publicou aproximadamente setenta volumes durante sua carreira literária, sendo que as mais famosas foram espécie de manuais de instrução para pais e educadores. Com essa “pegada educacional”, Beaumont acabou se tornando uma das primeiras a incluir contos populares como ferramentas moralistas e educacionais em seus escritos.

Por causa de sua relação amorosa em Londres com o espião francês (!!!) Thomas Pichon (1700–1781), é um caráter em um romance intitulado cruzamentos, novela de Thomas Pichon, pelo escritor canadense A. J. B. Johnston. No entanto, nessa aparição ficcional, as datas do relacionamento não são precisos.