Leituras — Cacos: Momentos que fi(n)cam; e Um,dois e já

Faz muito tempo que não faço resenhas aqui no blog. Porém, durante esse período, ou hiato, muitas leituras interessantes distraíram-me, perturbaram-me, trouxeram-me emoções diversas. Dentre elas estão “Cacos: Momentos que fi(n)cam”, da Editora Amora, e “Um, dois e já”, da falecida Editora Cosac Naify (ainda em venda pela Amazon). Dois livros curtos e muito interessantes.

O motivo de ter escolhido falar dos dois de uma só vez é que, primeiro, ambos são leituras intensas, contudo bem rapidinhas. Para aqueles que desejam se sentar e devorar um livro de uma só vez, aqui estão duas boas dicas. Em segundo lugar, porque são opções que não vão pesar no seu bolso (custam na casa dos R$ 20) e… não pesarão sua bolsa. E não se engane: não é porque são livros curtos, de menos de 100 páginas, que não mexem conosco, são “fáceis”. Muito pelo contrário. São leituras que nos geram várias reflexões (pelo menos a mim foram assim).

Vamos lá?

Cacos: Momentos que fi(n)cam

Bom, vou começar pelo Cacos, que é um livro de contos da jornalista e escritora brasileira Ciça Lessa. O livro traz histórias bem curtinhas, porém intensas, espinhosas (daí o nome do livro, certo?): nos vinte contos, encontramos personagens que vivem separações, desgastes no relacionamentos, morte, luto, violência sexual.

Vale destacar que Ciça traz uma visão bastante feminina para o livro. Os contos, apesar de falarem sobre assuntos pesados, tensos ou tristes, têm uma leveza, uma narração suave — e intensa ao mesmo tempo. Característica que as mulheres conseguem colocar no que fazem, né? Brincadeiras à parte, recomendo o livro. Gostei de maneira especial dos contos dois, doze, quatorze e dezoito. Marcaram-me bastante.

Gosto de contos, inclusive os escrevo quase toda semana por aqui. E adoro essa possibilidade de conhecer histórias ou viver, por algumas páginas, os sentimentos de personagens. E Ciça é rápida, tem frases curtas, cortes bruscos. Algumas vezes, acho que poderia desenvolver mais, mas entendo que possivelmente seja o estilo da escritora, talvez uma decisão de trazer essa sensação de “susto” — e a sangria disso continua em nós.

Deixo, portanto, trechos para “tira-gosto”.

“Percorreu ainda a visão dos postais, os quadrinhos, as latinhas, as coleções de canetas, os lápis, os pincéis, coisas que ele não sabia de onde vieram nem para que serviam. O que fazer com tudo o que ela deixou? Queria que aquela herança infiltrada desaparecesse magicamente. Recordou um tempo em que a casa tinha sido só sua, mas essa época era um vazio apenas”.
“A casa desocupada ficou triste. Marília olhou a parede comprida do corredor que tinha virado moldura cinzenta de retângulos brancos, gravados pelo misto de ação do sol e da impregnação da fuligem na tinta alva. Observava atenta esse negativo chapado dos porta-retratos antes ali pendurados. Teve sempre um carinho especial em cuidar dessa galeria, fotos suas e de Antônio, a maioria retratos dos dois juntos — e deles, agora, restara só a ausência”.
“Não existe único golpe que rompa o tecido de uma relação. Provocados como por cebola se dando corte, os olhos extravasam essas lágrimas, na despedida que se prolonga sempre: preferiam por certo não chorar. A separação é longa e má, rouba as lembranças boas. O precavido guarda sementes de outros sentimentos para o amanhã”.

Um, dois e já.

Uma narrativa curta da escritora uruguaia e roteirista de cinema Inés Bortagaray. Mas, acredite, o livro é capaz de despertar uma sensação de nostalgia enorme, é quase inacreditável. Eu amei esse livro. Sentei-me uma noite no sofá de casa e, de maneira despretensiosa, comecei a leitura. E não consegui parar até chegar ao final. Abracei o livrinho quando fechei as páginas. Que coisa linda.

Bom, a narradora do texto é uma menina, “irmã do meio” de uma família de pai, mãe e quatro crianças, que, durante toda a história, estão em viagem, na estrada, a bordo de um Renault 12. Inés não nos deixa claro, não define o lugar e a época em que a narrativa se passa, mas dá para “sacar” que seria no Uruguai, pois viajam de Salto a La Paloma. Também fica implícito que ocorre no período da ditadura militar no país.

Destaco aqui a descrição de Vitor Ramil, que está na orelha da edição da Cosac: ele diz que a viagem dessa família pode ser considerada uma “viagem síntese de todas as viagens”. Afinal, é possível sentir empatia pela menina-narradora e suas observações infantis ao longo do trecho percorrido. Ela está “contando os postes” da estrada, apontando os carros e as cores dos veículos com quem cruza a estrada, relatando as brigas entre ela e os irmãos para “quem se sentará na janela” — problema que é resolvido pelos pais, que fazem um sorteio e, de tantos em tantos quilômetros, obrigam o revezamento.

Gente, quem nunca? A linguagem da escritora é discreta e afetiva, nos permitindo sentir e compartilhar de cada frase do começo ao fim. As percepções inocentes e poéticas da menina nos leva nessa viagem, nos faz sentir dentro do carro, nós mesmos como crianças que já fomos, relembrando nossa família, nossas expectativas de chegada (e, ao mesmo tempo, a vontade de continuar da felicidade de estar no carro com os jogos em família, ou mentais)… Se você foi criança, como eu, em tempos quando não havia tabletes para nos distrair no carro: prepare-se. O livro “Um, dois e já” irá te levar de volta para aquele banco de trás.

Ah, coloco outro apontamento de Vitor Ramil que não pode passar em branco. A escritora escolhe, como epígrafe, um trecho de Franz Kafka, em “A próxima aldeia”, de 1917, já que a narradora também é uma pequena garota. E é lindo, gente.

Para finalizar, deixo um trecho desse romance pequeno, porém maravilhoso.

“Agora estou na janela. Sorte a minha. Não acontece toda hora, porque sou a irmã do meio, e irmãs do meio nunca ficam nas janelas. Mas a viagem é longa e meus pais resolveram sortear os lugares, pra gente não gritar nem incomodar, porque é perigoso. Ninguém quer que a gente bata o carro, não é?, então fiquem calmos e calem a boca. De modo que estou na janela, mas não posso me iludir, porque daqui a duzentos quilômetros vou para o meio, que é o meu lugar, de onde eu nunca deveria ter saído. (…) Um, dois, três, quatro, quatorze postes. Quinze, vinte, trinta e seis, cinquenta e cinco postes. Os postes se movem e eu estou quieta. Avançam para trás, em direção ao que já passou. Mesmo que meu pai parasse de dirigir, se ele se negasse a acelerar, freasse de repente, esses postes e essas linhas seguiriam viagem”.