Mar de ene e a infância

As mãos buscavam o conforto no quarto escuro durante aquela que, ao que tudo indica, pensa rápido, seria mais uma noite mal dormida, consumida pela ansiedade presente em quase tudo o que tem feito.

Enfim, tentava capturar os fantasmas do dia que voltaram para perturbar a noite. O coração acelerado, a crise de ansiedade. As mãos buscavam no escuro a saída para a respiração.

Foi então que, involuntariamente, começou a escrever no ar, os dedos já mais leves e menos duros. Escrever no ar: mar de ene. Mardeene. Mar. De. Ene. Repetia.

Aos poucos, o coração desacelerando. As mãos escrevendo a lembrança de tantos anos. Só a infância poderia salvar sua noite, constata. Retornou ao dia em que conhecera Mar de ene.

Lembra-se dos pais sorrindo, o clima quente, o cheiro de grama cortada, o vento que bate, a fome que já veio. Um dia agradável de férias. A viagem perfeita em família naquele balneário que acredita ser o tal Paraíso na Terra. Criança, presta atenção nos pais, na cerveja gelada dos pais, na Coca-Cola que toma. Naquela sensação de frio na barriga, borboletas no estômago. Não pelo futuro, mas pelo presente. Vive a sensação de (hoje compreende) estar inteira. Viva. Agora. Sem amanhãs.

Toma mais um gole do refrigerante, ouve a conversa dos adultos. Vive a alegria de estar ali naquele exato lugar, sentimento somente experimentado por crianças: cheiro bom, noite perfeita, pais sorrindo, férias.

Então, chega o garçom simpático, oferece o cardápio, conversa com os pais contentes. Em algum momento, ele revela sua graça no mundo, docemente escolhida pela mãe:

“Me chamo Mar de ene”.

Os pais, surpresos, brincam com o homem de nome de mar.

“Mas você não é um nome, é uma poesia”, dizem.

Mar de ene. Mardeene. E a imensidão daquele mar com enes: nnnnnnnnnnn

Pura onda. A imaginação da menina vai longe. Mergulha no sentimento da doce mãe, que pariu e deu ao menino a graça de sempre viver com o som das ondas em seu nome. O cheiro de grama e um mar cheio de ondas em ene. E não é que parece mesmo? A onda por cair, um ene em construção ou desmanche. O oceano.

No quarto escuro e vazio, a mulher já controla seu coração aflito. Mais tranquilo, transportado. O susto de ser adulta só poderia ser curado com a felicidade que a menina sentia de estar naquele lugar. A menina, plena, imaginando ser mar, ser brisa de mar. A casa de veraneio. Veraneio. Que será veraneio?, pensa brincando de ser criança.

No quarto escuro, fecha os olhos em busca da luz daquele lugar. Da casa. Do seu chão de terra batida, da grama, das árvores. Lembra-se dos pés de manga, jabuticaba, as milhares de folhas no chão. O estalar dos pés nas folhas. A terra molhada. Créque, créque. Lembra-se daquela árvore enorme sem frutos, árvore onde subiu, onde havia um balanço de pneu. Embaixo da árvore sem filhos, cavou a terra em buscas de tesouros perdidos. Com colher.

Consegue ouvir o barulho dos pássaros e as cigarras do fim da tarde. Volta àquele lugar com chão de lodo, o cuidado para não andar depressa e escorregar. Medo, medo, medo, cheguei. Sem escorregões, uma conquista! Respira fundo e lava os pés no chuveirão de água gelada. É capaz de sentir o cheiro do protetor solar que passara em sua pele tão branca. Chega perto da piscina, que está ao lado do pé de pitangas. Azedíssimas e alaranjadas. Ainda não maduras.

A mulher fecha os olhos com força. A sensação de se transportar. Olha para o lado e consegue enxergar mais um pouco das mangueiras. A goiabeira e seu tronco liso… Pé de fruta-do-conde. No fundo, o silêncio. O silêncio fazendo travessões às cigarras e aos pássaros.

Micos espreitam o telhado. E vêm correndo pelas copas das árvores, comem banana nas mãos da menina. O cheiro de grama cortada. Pitanga, cigarras. Lodo. Macacos. Piscina.

O coração tranquilo, a respiração mais profunda. O sono vai a levando para lugares de esquecer. Talvez, sonhos. Talvez continue no seu Paraíso, que existiu. Ainda entre acordada e sonolenta, repete mais uma vez aquele nome.

Mar de ene. Mardeene. nnnnnnn. Pura poesia. Mais do que poesia. Mar de ene é aquela felicidade guardada com cheiros, sons e sabores. Descobrira, então: Mar de ene é um portal.