A menina que queria enxergar por dentro

Como num passe de mágica, fechei meus olhos e abri os da memória para revisitar aquela menina do passado. Menina loura e pálida, tímida e viva, curiosa! Quanto tempo não a via…. Exceto pela vivacidade e palidez, como você mudou querida!
Eu a surpreendi fingindo falar ao telefone de disco. Por um instante, nos entreolhamos saudosa e amorosamente, mas não nos abraçamos. Ela correu, eu a segui e a flagrei olhando atentamente para o seu reflexo num espelho. Os pensamentos filosóficos da primeira infância propagavam no ar e podiam ser ouvidos. Eles diziam: como pode esta ser eu, se sou aquela que está dentro de mim?
Num súbito, a menina intrigada foi ao encontro da mãe que lhe falou sobre a alma e suas moradas. Depois da conversa, brotou em seu coração o desejo ardente de enxergar a tal alma — a sua e a dos outros. Então, indiscriminadamente, começou a fitar as pessoas e fixar o seu olhar além das pupilas do outro como se quisesse decifrar um enigma ou procurar uma pista, uma centelha divina talvez.
Fiquei chocada com o que vi, me despedi cuidadosamente da garota, fechei os olhos vivos da memória e abri os meus um pouco já cansados. Não tardou para eu me dar conta que eu era aquela menina de outrora, que eu havia crescido, o desejo esfriado, a conexão se perdido. Não reconhecia a menina em mim, àquela altura já havia desaprendido a enxergar além do invólucro.
Pouco tempo passou e os maiores percalços da vida até então vieram. Entretanto, um deles me conduziu a um novo espelho que, por sua vez, me desafiou a olhar como antes. Com bastante esforço percebi, outra vez, o que existia internamente e me redescobri. Dali por diante, as emoções mais profundas urgem vir a superfície. Então, acreditei ser possível expressar uma fração delas e tocar o outro — por dentro. 
Assim, despretensiosamente passei a fazê-lo, sinto-me bem! Ademais, volta e meia revisito a menina do passado para manter o desejo quente e jamais esquecer aquele momento em que experimentei pela primeira vez o sabor… O néctar e o fel de descobrir, ao menos um pouco, quem verdadeiramente sou eu.