Manifesto de uma vida nova

Não foram os outros, fui eu! Fui eu que me joguei em lugar nenhum e como um feto me recolhi. Mergulhei desesperadamente dentro de mim, mas eu não sabia para onde ir. No silêncio, subi e desci montanhas, atravessei desertos e rastejei sem bússola.

Depredei o templo e a vaidade de seus muros esvaiu-se. Não foi intencional, eu juro! Surtei e precisei dar pílula ao leão, só então sosseguei. Anestesiada, assim fiquei por um tempo. Mecânica e adestrada. Desejando intensamente, mas sem chave, abrir a porta de saída.

Há algum tempo desorientada, pensei ter avistado uma miragem. Não me enganei, encontrei um oásis e, junto dele, sua guardiã invisível. Eu a escutava em meus pensamentos. Que criatura estranhamente gentil, me tratava cordialmente! Eu tinha certeza de que nunca havia estado em sua presença antes, mas ela certamente me conhecia. Era senhora de si e quase me ordenava beber de sua fonte miraculosa. Sua superioridade me incomodava e eu, inclusive, cogitei desistir da tentativa de preencher ali minha incompletude. Como confiar em um ser sem rosto?

Ah senão fosse minha sede descontrolada eu teria resistido, mas a resistência foi-se com o vento e eu me entreguei a sua oferta imperativa. Deixei-a derramar e, agraciada, transbordei. Enquanto me completava, percebi novos vazios em mim, lugares até então desconhecidos. Num deslumbre, apossei-me da fonte e a guardiã emudeceu. Esbanjei-me! Todavia, o vício me estagnou, vários sóis se puseram e nada de novo aconteceu.

Num dado momento, escutei um sussurro. Uma voz dizia não existir razão para eu me apropriar de algo que já era meu. Que tolice! Rompi imediatamente com o ópio de minha insegurança. Não tenho dúvidas, a guardiã me intuiu e eu desapeguei. Depois, um estalo ecoou em meus ouvidos e passeou livremente pelo meu corpo. Decodifiquei ser um alerta para eu morrer novamente. É verdade que não me faltava coragem para renascer, mas para elaborar minhas faces em decomposição. Tomei fôlego e decidi pela regeneração.

Primeiro, uma dor quase de parto escoou pelos olhos; depois, o alívio de um ventre acolhedor. Desconfio que tenham me fecundado outra vez, pois agora me sinto realmente pronta para nascer de novo!

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