O “cárcere” da maternidade ( e como me adaptei a ele)

Filha da mãe, como ousei estereotipar a maternidade? Acaso a fantasia projetada em minha mente correspondia às nuances que via em meu entorno? Então que eu explorasse mais e conhecesse novos entornos.

Eu estava grávida na estreia de minha busca pela independência e o paradigma da figura divina que abdica da própria vaidade em prol da prole não me servia. Era velho e logo caiu por terra! Cocriei, então, um novo modelo, mais compatível com os meus outros papéis. Enquanto ele se firmava, eu edificava.

Não escolhi ser mãe, é verdade; fui escolhida, então abracei e dei à luz! Paulatinamente, à medida que meu filho e eu florescíamos, dei ao pai a oportunidade de ser pai. Desde então ele não me ajuda, ele é inteiro! Compreende?

Tive sorte? Depende. Soube usufruir do acaso que, a duras penas, me deu elementos com os quais uma verdadeira relação de confiança foi familiarmente elaborada. Hoje, se o recomeço me fosse permitido faria deliberadamente a minha própria sorte.

Ironia! À primeira vista, ainda há quem duvide de minha maternidade. Fora de estereótipos, dizem que não tenho cara de mãe. Sorri empaticamente a menina que fui e questiona internamente a mulher que me tornei: mãe tem rosto? Trejeitos, quiçá? Particularmente, tomo posse de várias faces, estou aqui e acolá — sozinha, acompanhada — quase sempre presente, quase sempre devagar.

Redenção! Ressignifiquei a minha crença. O que poderia ter sido fardo, foi dádiva, fruto da adaptação. Então sublimei, no velho modelo certamente haveria sucumbido.

Meu filho me deu o título de mamãe mais maluca do mundo e nesta loucura o humano em mim vem se aproximando um pouco do que almejo — evolução.

Filhos são âncoras! Declarou a sacerdotisa Dionisíaca. Uns precisam, outros não. Em sua maravilha denunciou a liberdade uma ilusão. Não somos livres — disse ela. Exceto pelo fato de podermos escolher a nossa própria prisão.

Creio também não precisar de âncoras, outrora um filho não seria opção. Hoje, rogo remissão ao universo pois cogitei me privar de viver a oportunidade mais grandiosa de auto-aperfeiçoamento até então. Porém, quando me entreguei, pensei ter me emancipado em meu cárcere asseado…

Ledo engano? Quem sabe. Por ora, escolho conscientemente me iludir passeando voluntariamente entre minhas prisões. Espero a promessa da liberdade sem pressa pois careço de tempo para aprender a não resistir… Ainda temo paradoxalmente a morte, esta que com sorte me fará verdadeiramente livre, passarinho sem norte no bálsamo sagrado de seu elixir.