O começo da laranja

A árvore frondosa de minha infância é testemunha de que ele sempre me dava o começo da laranja. Ficava mais fácil descascar a fruta para experimentar o seu sabor e depois lançar as suas sementes embrionárias naquele quintal de minhas aventuras. Eu acreditava mesmo que o milagre da vida ali pudesse ocorrer.
Ele sim conhece o meu coração. Desconfio que tenha conhecido o meu ímpeto desbravador antes de mim, talvez por isso me desafiasse tanto… Depois das laranjas vieram os pepinos e eu escolhi ampliar os meus horizontes num rompante de guerra. Era o impulso realizador manifesto que expandiu as minhas possibilidades, mas me afastou do perímetro de seu alcance e eu saí de suas vistas…
Que saudades de suas visitas, tão eventuais! Sempre o cobro porque muito as espero. Sem que você perceba, gosto de contemplar o seu olhar verde, terno e firme; seus lábios finos e endurecidos; o cabelo alvo e a postura altiva. Me divirto com a sua rigidez periférica porque conheço a sua ternura vertebral.
Ahhh pai, me abençoa com aquela cruzinha na testa, me dê aquele abraço longo e apertado, o beijo estalado e cinco segundos do seu olhar que me empodera e me convence de que posso mais uma vez recomeçar. Vem me visitar meu pai, penso que careço, outra vez, de que você me dê aquele comecinho maroto e sábio da laranja.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.