O que aprendi com Amy?
Adorava suas músicas, admirava sua personalidade, mas nada conhecia por trás de tudo isso. Aliás, este é um mal dos nossos tempos: celebridades são produzidas e comercializadas pela embalagem. Não era fã dela, muito em parte por culpa da mídia que a ridicularizou e ao expô-la, fez com que acreditássemos em sua loucura. Mas no último final de semana eu assisti ao documentário que conta parte da história de Amy Jade Winehouse, de como ela se “transformou” na personagem caricata vendida pela mídia e que todos conheceram (até quem nem apreciasse seu som). Foi um tapa na minha cara, na cara desta sociedade hipócrita, que critica, mas que consome o escândalo… E olha que nunca gostei de revistas, sites de fofoca, sempre acreditei que o artista deve sim ter sua privacidade preservada. Não, eles não são obrigados a se sujeitarem a nada, apenas porque se tornaram famosos. Não, eles não nos devem explicações, tampouco devem pagar alto pelo sucesso. Quem nos faz acreditar nisso? É a mídia, a mesma que nos imbeciliza diariamente para nos fazer engolir falsas verdades, porque mantém toda uma indústria cultural que a beneficia somente. Apesar de nunca ter me sentido atraída pelo mundo mantido pelos paparazzi, eu senti culpa — e muita — ao assistir ao documentário. Senti vergonha por aqueles que foram responsáveis pela derrocada de uma grande artista. Sim, Amy compunha, cantava e interpretava suas músicas! Ela era visceral e isso dá pra ser vivido no decorrer das duas horas de vídeo. É óbvio que é apenas parte de toda uma vida interrompida aos 27 anos, mas que, contudo, nos mostra uma realidade inconveniente: somos corresponsáveis por esta perda! Você deve estar se justificando que ela não era menos culpada, afinal, se drogava, bebia e levava uma vida desregrada e por fim, a célebre frase de que “se ela não quisesse ser famosa, tinha como mudar, parar” etc. Será? É fácil decidir a vida dos outros, principalmente quando fazem sucesso e têm dinheiro, porque em um mundo que valoriza o ter e o parecer, ser é quase impossível e afeta nossas escolhas. E não dá pra exigir sanidade em um mundo tão incoerente (a propósito, ser forte é para bem poucos diante de tanta loucura). Eu admirava a intensidade com que ela vivia da maneira como queria, mas que por outro lado, a fragilizava diante de tantas relações doentias — do pai ao namorado — e até consigo mesma. Aprendi que quando uma cantora como ela aparece na mídia, devemos olhar com mais cuidado e carinho, buscar ir além para não comprar os estereótipos. Aprendi que o tempo passa, que as dores nem sempre são nossas, mas que temos a obrigação de respeitá-las, porque muitas vezes, quando nos damos conta é tarde demais. Tarde pra se arrepender, porque perdemos muito mais do que apenas a celebridade que nos venderam. Muitos argumentarão que pessoas como ela venham com um propósito e, talvez, isto explique a intensidade de suas experiências, mas isso não seria se omitir? Porque, desta forma, nos conformamos com as vidas que destruímos nesta vitrine midiática. Amy, obrigada por abrir meus olhos, espero que o documentário recupere um pouco da sua essência e mostre ao mundo quem você foi e que deveria ter nos inspirado muito mais a colocar amor ao que fazemos e em como tratamos o outro. Aprendi com você que muitas vezes os que mais se importam conosco não são os que estão ao nosso lado, mas os que têm a coragem em nos dizer NÃO!