O Efeito Suicida {20/08/17 – 23:53}

Eu não estava chorando naquele dia, sabe? Eu apenas coloquei a minha máscara no anoitecer de uma sexta-feira e, na volta, na madrugada da mesma, eu a tirei. E no meio do processo decidi salvar aquele momento com uma simples fotografia. Por que eu fiz isso? Achei que aquele momento definiu a minha personalidade. Definiu como eu realmente sou por dentro: fraca.

Conseguiu mostrar como o jardim que costumava habitar dentro de mim está se obstruindo aos poucos. Ele costumava ser cheio de flores, de todos os tipos. Tinha uma cachoeira colocada entre duas rochas cobertas com musgos. E se você a ultrapassasse, descobriria os tesouros escondidos dentro da caverna que ali se encontrava.

No fundo do cenário, quando chegamos no último centímetro do horizonte que os nossos olhos conseguem alcançar, havia uma praia. A areia era macia e quentinha, e seus pés gostariam de habitar ali para todo o sempre. O Oceano era potente, mas também era delicado. Suas ondas ultrapassavam as montanhas, e te carregavam como se pertencesse a elas. O Sol, que iluminava aquele dia interminável, era radiante como a minha esperança. Seu reflexo ofuscante posto sobre o mar fazia-me compreender que a água não combate o fogo, e sim que eles se unificam de uma maneira gloriosa.

Cada vez que eu explorava mais, descobria vilarejos, pessoas, MOTIVOS para continuar caminhando. Cada uma delas significavam tudo para mim, do jeitinho delas. Elas me contavam histórias de seus próprios jardins, seus próprios tesouros escondidos, suas identidades reais.

Mas então eu achei ele. Ele era diferente, eu não sabia explicar. Ele falava do jardim dele como os outros, mas de um jeito diferente, um jeito único. Ele não dizia apenas as coisas boas sobre o que tinha lá. Ele disse que havia muitas rosas, e que ele não conseguia ignorar o efeito do espinho das mesmas. Ele via toda a sujeira colocada no oceano pelos seres humanos, e não gostava daquilo. Mas ele falava. Ele não fazia questão do seu habitat ser perfeito, que nem as outras pessoas faziam. Mas então ele desistiu. Ele destruiu o jardim dele por completo, amassou cada pétala de cada flor, e bebeu cada gota do seu Oceano até se afogar. Ele se foi, e não sobrou nada.

Então foi nesse momento que eu descobri tudo: o nossos jardins são compostos por pequenas partes, nem que sejam minúsculas, dos jardins das outras pessoas. Todos fazem parte de todos. E, quando ele se foi, uma parte da rocha que sobrepunha a minha cachoeira se desmanchou. O sol não ofuscava a água do mesmo jeito que fazia antes. Apenas era refletida nela, nada mais. As ondas do oceano começaram a ficar brutas, até eu perder a vontade de me molhar de novo. Eu me senti culpada, comecei a pensar em todas as flores que eu podia ter dividido com ele, o que faria com que ele desistisse da ideia de destruir o seu jardim. Eu poderia ter feito parte dele. É muito egoísmo da minha parte, eu sei. Mas a saudade é um sentimento sutil, ela chega de fininho e, quando já é tarde demais, você tem um desejo enorme de destruir o seu próprio jardim.

O meu contato com os vilarejos foi reduzido, mas não por completo. Depois de um tempo eu comecei a perceber que todas as pessoas que eu dizia conhecer usavam máscaras. Eu não conhecia elas, ou melhor, eu não conheço elas. Eu conheço a máscara que elas usam, eu conheço o papel sufilme que elas colocam sobre a imagem de seus jardins.

Foi quando eu descobri porque ele era diferente. Ele não fazia isso. Ele não fazia questão de tornar a imagem dele perfeita. E isso me fez perceber que ele foi a pessoa mais incrível que eu já conheci. E o maior erro que eu já cometi na minha vida foi só perceber isso quando ele já tinha ido. E, a dor dessa notícia não diminui com os dias. A cada colheita que passa, a cada coisa que as outras pessoas dizem sobre os detalhes que continham no jardim dele, isso só faz mais uma pétala de flor do meu jardim ser estrangulada. Já existem árvores com os galhos secos, e já há folhas caídas pelo chão. As pessoas que me ajudavam na construção do meu jardim, não estão mais lá. Elas estão desaparecendo. Se afastando de mim, e aquele dia interminável parece mais desconfortável e gelado. O sol para de brilhar com o tempo, e as ondas desistem de me animar. A cachoeira goteja, deixando a mostra alguns tesouros que ainda restaram. Três deles, pra ser mais específica, mas isso é outra história.

Eu não tenho uma maneira de terminar essa escrita, pois meu jardim continua se diluindo com o passar dos dias. Se você estiver lendo isso e ainda não for tarde demais. Eu te imploro: me ajude a construir meu jardim novamente. Ele é tudo o que eu tenho. Ele é tudo que ainda me resta.

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