O mundo é um enorme liga-pontos

Lá em cima é como aqui embaixo, Jackie. Você precisa procurar as coisas que nos conectam. Encontrar o jeito com que nossos caminhos se cruzam, nossas vidas se interceptam e nossos corações se encontram.

Quem me conhece sabe que antes de ser fã de histórias eu sou uma apaixonada convicta por narrativas. É que eu acho que toda história tem o potencial de ser incrível, só precisa de alguém que saiba contá-la da melhor maneira possível. Foi isso que Clare Vanderpool fez com seu delicioso Em Algum Lugar nas Estrelas.

Veja bem, eu me encantei com esse livro antes de ler e certamente não fui a única. Na minha vida leitora eu já tive contato com muito livro bem feito, mas acho que nunca vi um projeto editorial casar tão perfeitamente com a obra como dessa vez. A Darkside books* fez um trabalho tão bom que ficou nítido que eles captaram a alma do texto. É mágico.

Logo depois de me apaixonar por ele à primeira vista (e desistir de comprar porque estava caro e eu estou ~nas estatísticas~), comecei a dar de cara com gente falando sobre ele em tudo quanto era canto. Era meu primo me perguntando toda hora se eu já tinha comprado o tal do livro lindo, eram youtubers falando sobre ele, era projeto literário enviando exemplar, enfim, parece que quando a gente cisma com uma coisa ela começa a nos perseguir. Acabei encontrando uma promoção e comprei.

Como toda boa curtidora de felicidades clandestinas, é claro que eu ainda ia enrolar um pouco pra ler, deixando o bichinho me olhando da estante com o rabo do olho — e cada vez que eu olhava eu dava um suspirinho. Às vezes eu nem precisava olhar, só lembrar que ele estava ali, à minha espera, já bastava.

Finalmente resolvi pegar pra ler e, na verdade, não sei porque inventei de escrever uma resenha se mal tenho palavras. É que não é que o livro seja sensacional, porque não é, sabe. Já li algumas coisas que eu considero sensacionais, e não é o caso dessa vez. Só que, curiosamente, isso não faz com que ele seja menor. Parece que tem coisas que não precisam ser sensacionais, só precisam ser elas mesmas, sabe? Esse livro é assim.

Pra começar, ele é narrado por um adolescente que ainda tem uma aura bastante ingênua de ser. Pra continuar, esse adolescente perdeu a mãe e carrega com ele muitos ensinamentos de vida dela, que são um mais lindo e poético que o outro. (A mãe já está morta quando o livro começa, e mesmo assim ela quase é meu personagem favorito).

E do que fala? Olha, cruamente, fala da mudança na vida desse menino que perdeu a mãe, tem uma relação de estranhamento com o pai e acaba sendo levado do interior do Kansas, um local árido, onde sempre viveu até então, para um internato só para meninos no Maine, cujo mote é a navegação. De repente Jackie se vê tendo aulas de mergulho, de remo e inscrito para participar de uma regata, sendo que ele nunca tinha visto o mar na vida e não entende nada disso. No meio de seus próprios dramas, ele acaba conhecendo Early Auden, o “menino esquisito”** da escola, eles ficam amigos e Jackie acaba indo de gaiato numa jornada que Early cisma em fazer pela trilha Apalache atrás de seu irmão (que morreu na guerra).

E eu disse que essa era um resumo cru da história porque, sei lá, não sei se eu mesma interessaria por ela lendo uma sinopse dessas, mas foi o que eu falei lá em cima: a forma de contar é que faz toda a diferença. É nos detalhes e nas nuances que Clare costura o livro mais singelo que já li nos últimos tempos (quiçá na minha vida).

Fugindo da definição superficial, eu diria que Em Algum Lugar nas Estrelas fala mesmo é de sentimentos, e de como a gente tem que se mostrar disposto para receber o que a vida nos oferece e descobrir como podemos nos conectar com isso. O mundo, ele é um enorme liga-pontos, e se a gente prestar atenção pode ser que tudo se encaixe, mesmo que nada pareça óbvio.

*Tô babando ovo na Darkside de graça mesmo porque achei que essa edição é uma obra de arte, não tem nenhum publi envolvido nisso, inclusive infelizmente.
**Entendi desde o início qual era a “esquisitice” de Early, e pra mim na verdade isso nem era uma ~thing, mas aparentemente é, porque a autora explica num apêndice, ao final do livro, então prefiro não falar sobre o assunto também, já que ela, ao menos a princípio, não queria que ficasse claro.