Um acordo com a introversão

Minha querida simpatia, muito pouco tenho te encontrado dentro de mim. Dia-sim dia-não, quando entro no elevador e me deparo com algum vizinho, não lembro que você existe. Por vezes sinto que gosto de não lembrar. Olho para baixo. Finjo estar pensando em qualquer coisa que me faça parecer intelectual e desligada. Simulo uma boca, uma cara, uma tristeza, um sono. Mas estou ligada.

Na rua, vejo um conhecido e neste exato momento uma mensagem imaginária surge no celular. Faço cara de importante. As vezes apática ou aborrecida ou quem sabe, nos dias bons, vibrante ou entusiasmada. Na praça de alimentação do Shopping, nesse lugar turbulento, você nunca está presente. Lá eu desvio de qualquer possibilidade de eventualmente cruzar com um conhecido. Detono as casualidades. Declaradamente eu fujo do seu encontro.

O problema não é você, sou eu.

Sei que a culpa não é sua e não tenho nenhuma oposição a tudo isso, é verdade. Sou adepta a solidão, uma correligionária do isolamento. Isso não é nenhum sacrilégio. Só me parece natural que simpatia e gostar da solidão não formam um casal sublime aos olhos dos outros.

Aos desconhecidos deixo minhas desculpas pelas faltas de indagações de como estão. É o meu jeitinho. Aos colegas também deixo aqui minhas desculpas, pelo meu sorriso e o meu olá não seguirem um “tudo bem?”. Não me leve a mal, é por querer.

Ainda bem que existem seres que intrinsecamente estão com você, querida simpatia. Me alivia a intimidação de ser. Dia-sim dia-não analiso aquela pessoa que consegue estar contigo vinte e quatro horas por dia, mas agradeço por existir em outro individuo tão distinto de mim. Dou de cara com a diferença, graças aos céus: as diferenças entre as pessoas.

Mas me aflijo. Ninguém me avisou que você, a senhora, é tão estimada. Escolhi estar distante e isso nem sempre é bem visto. Não é bem sucedido. Gente bem sucedida fala, grita, fala o que o outro quer ouvir, não é? Sorri. E sorri de novo e corresponde a um sorriso quando está com dor de dente ou prisão de ventre, quando acordou sem querer acordar. Fala perto, fala muito. Gente extrovertida.

Eu estou aqui para pedir trégua.

Não há problema você estar presente mais vezes, se intrometendo e cooperando comigo. Nunca tive objeção a nossa amizade. Só presta bem atenção: vem aqui perto de mim, mas pelo amor aos céus, deixa eu encenar o recebimento de um email super importante no elevador quando quero bater um papo comigo dentro da minha cabeça?

Obrigada e desculpa qualquer coisa.