Amores arrogantes

Havia um tempinho que estava pensando em falar sobre arrogância, mas eu não sabia em qual formato, sob qual perspectiva. Até o momento que estava lendo o trabalho de um antigo flerte meu, e imediatamente, através das suas frases, lembrei-me do porque gostei tanto dele. E ali veio minha luz no fim do túnel. As vezes a melhor reflexão, a melhor historia que pode ser contada é aquela memória até pouco tempo esquecida. Eu sempre soube como queria abordar, mas não tinha coragem de admitir. Isso não qualifica ninguém como pessoa ruim, é apenas aceitação sobre não sermos apenas coisas boas. Nós todos temos coisas que não gostamos de admitir ao mundo. E no meu caso arrogância é uma delas.

Lendo os contos egocêntricos do fulano, mergulhei nas conversas que tivemos, era o puro jogo de sedução sendo jogado. A ambiguidade no olhar, na mordida no lábio, o comentário inteligente citando o autor que o outro mais gostava… Tudo friamente calculado, em ambos os lados. Nós dois sabíamos no que estávamos nos metendo. Ninguém ali procurava por amor, romance, éramos superiores demais para acreditar nesses contos urbanos. O objetivo era empírico, e tinha uma competição em jogo: Quem cedia antes. Quem daria o beijo antes, quem demonstraria o interesse, e daria o ponto de partida para o toque corporal. Mas éramos oponentes fortes, experientes. Sabíamos todas as táticas de flerte, talvez até já inventamos algumas. O cenário era aquela fachada ensolarada, com o azul saturado de “somos apenas dois amigos que compartilham muitos assuntos em comum”. O beijo de cumprimento era aquele milimetricamente posicionado no meio da bochecha, somado àquele olhar incisivo no meio do olhar do outro. Talvez mais arrepiante que um beijo quente e demorado de língua. A cada vez que isso acontecia, eu não sentia um frio na barriga pelo ato da aproximação, eu sentia-me com a sensação de dever cumprido de ter causado isso no outro. Ponto para mim. Eu tinha o adendo de ser mais dissimulada que ele.

Levamos uns cinco jantares nesse ritmo, e nunca se tornava cansativo, repetitivo. Pelo menos três garrafas se esvaziavam por noite, mas nada escapava, já era automática a proteção com o rosto em expressão blasé. Ainda assim tínhamos ótimas conversas. Éramos como dois semideuses que heroicamente chegaram ao Monte Olimpo e dali conseguiam observar e menosprezar os meros humanos e ao mesmo tempo constatar a humanidade absurda que os deuses completos tinham em si. E não nos sentíamos envergonhados ou receosos em dizer em voz audível. O sentimento era reciproco, sabíamos do que estávamos falando, sabíamos que éramos como todos os outros, nosso diferencial era aceitar a perversidade sutil e urbana, entender que fazemos parte disso. Somos tão demasiado humanos como o resto do mundo, talvez somos ainda mais humanos, talvez é esse nosso diferencial. Humanidade completa.

As quartas de final desse jogo inteligente se aproximavam, e após tanta convivência, nos relacionarmos se tornou natural. Talvez até necessário. Nos víamos muito mais do que o começo, a pauta dos assuntos parou de ser sobre o mundo. O olhar se incisou mais, os momentos que o argumento arrebatador era substituído pelo sorriso embaraçado se tornou mais frequente. Ainda estamos jogando? Ele ainda mantém sua linha de ataque? Porque eu já não sei onde está minha frente de defesa. Percebo minha fraqueza, e isso me irrita. Por isso a arrogância me anima, ela é a melhor arma e armadura que um indivíduo sozinho no mundo pode ter. Sempre fui protegida por ela, minhas fragilidades são só minhas, eu não tenho que as compartilhar com o mundo. A gente vive uma guerra existencial, somos sim todos indivíduos sozinhos no mundo. As relações diplomáticas são estritamente necessárias inclusive no nível corriqueiro. O seu tipo de “oi” vai ser muito analisado. É um contra um. Nessa briga constante de tudo contra tudo é impossível de fazer alianças. Ninguém em maioria, nenhuma tragédia acontece, apenas ferimentos em pequena escala.

Só que eu não estava afim de perder, uma contusão no meu orgulho tudo bem, isso eu escondo com sarcasmo. Eu tinha de preparar o contra ataque, porque senão era nocaute. Aquele desgraçado sabia o que fazia… Agora virou questão de honra, por ele ter feito um pequeno estrago na minha muralha de sensatez, eu iria bombardear o seu lado esquerdo do peito. No momento em que estava ligando para ele, recebo uma ligação do patife, e em sincronia nos convidamos para mais um encontro. Era tudo ou nada. Se mostrar (e estar) segura de si não adiantava, eu tinha de me mostrar acima, e eu realmente deveria me sentia assim.

Quando o encontrei, ah… Desmoronei, a menininha que está tendo uma queda aparece, mas tudo bem, vamos lá. Todas as possibilidades de defesa ou ataque foram descartadas, acabei seguindo a maré. No fim da noite eu nem sabia mais o que pensava. Culpa do vinho. O vinho só tem efeito em corpos apaixonados. Caídos no mais comum clichê, olhares ansiosos esperavam por algo que mudasse o momento embaraçoso. Até que aceitei a possibilidade derrota, fui em direção de tascar o bendito beijo nele. Só o que eu não esperava é que enquanto tomava a decisão os braços dele já estavam em minha cintura. A descarga de tensão veio. Não posso negar que fiquei feliz por ter dado empate técnico, meu lado caprichoso agradece.

Definitivamente estávamos apaixonados. Dois arrogantes, prepotentes pegos de surpresa pelo acaso. Depois de tudo acontecido, o despejo das palavras acumuladas era inevitável. Ainda com resquícios de sensatez, uma longa conversa se formou, apresentando todos os fatos a serem declarados. “Nós queremos mesmo isso?”. Argumentos contra e favor da futura suposta relação foram apresentados. Nos respeitávamos muito, nos víamos no mesmo nível de inteligência emocional, e sabíamos que essa história poderia funcionar. Éramos tão parecidos em nossos aspectos vistos pelo mundo como negativos que nos impressionávamos. Poderíamos ser igualmente arrebatadores a Catherine e Heathcliff de Morro dos Ventos Uivantes. Separados já éramos imbatíveis, juntos poderíamos sermos maiores. Um amor realmente sincero, intenso, duas partes que realmente se completariam, sem nunca beber da fonte de um romantismo aguado que o mundo tenta nos fazer engolir.

Seria muito bonito se essa historia terminasse com o casal formado, sendo felizes do jeito deles, como um casal exótico que só eles se entendem e todas as outras possíveis expressões que poderiam nos caracterizar. Ao fim da longa ‘pré-D.R.’ ainda não tínhamos nada decidido, no momento sentíamos que não precisávamos. Passamos uma belíssima noite juntos, até na cama nos entendíamos muito bem. Equilíbrio perfeito entre dois egocêntricos amando ao outro tanto quanto amam a si mesmo, dando prazer ao outro tanto quanto queriam para si. Parece o famoso amor verdadeiro. Mas só parece. O amanhecer traz as respostas que a noite não conseguiu responder. A luz do sol que faz os olhos arderem, iluminou todo o enrosco. Olho para ele dormindo, ele tem um rosto muito bonito, anguloso, de olhos fechados não da para imaginar que ele é uma fera em forma de homem, parece um anjo, inofensivo. Ele sorri enquanto dorme, isso o faz parecer quase bondoso. O encaro por mais um minuto, concluo que o amor não venceu, eu ainda me amo mais. Vê-lo naquela posição tão vulnerável me fez perder o imenso interesse que tinha me cercado. Eu gostava do modo como eu me sentia ameaçada, aquele jogo perigoso e sedutor. E com o amor eu perderia isso. Arrumei minhas coisas, fui embora sem dizer adeus. Escolhi a mim. Escolhi ser egoísta. Sou arrogante demais para amar. Ele também entendeu e preferiu assim, ele seguiu o caminho dele. Ele foi o cara mais interessante que já conheci. O mais arrogante também, mas esse foi o ponto crucial. Era corajoso o suficiente para admitir.