Cheiros, apegos

Gosto muito de guardar cheiros dos momentos importantes, relevantes da minha vida. Não são cheiros perfumados, não exalam odores açucarados, amadeirados ou cítricos. Fisicamente são inodoros, mas provocam sensações que me remetem a alguma lembrança, momento ou lugar. Talvez o uso da palavra cheiros proporcione um sentido equivocado, mas gosto de usar esse termo de uma forma abstrata, como se cada tipo de atmosfera transmitisse um perfume diferente

Percebi isso a primeira vez que vim para São Paulo, quando aspirei pela primeira vez não só ar, mas todas as expectativas que me cercavam em relação a esse novo momento da minha vida, meu folego absorveu coisas diferentes. Foi como se a cada suspiro, eu sentisse mais cocegas no estomago, como se eu estivesse me apaixonado. Enquanto na minha cidade natal, por mais que eu estivesse em meu lar, no meu perímetro seguro, num lugar que eu já dominava e já sabia me virar, eu respirava uma certa sensação de sufocamento, de decepção, até uma certa indiferença em relação a minha querida Curitiba. Era um eflúvio pesado demais para os meus pulmões daquela época.

Sentimentos também produzem seus cheiros, suas atmosferas. É incrível quando a melancolia vem, e exala o perfume tenso, pesado, estático, cheiro desesperado que se mistura com uma fumaça do cigarro que nunca evapora, com cheiro de lagrimas que nunca se manifestaram. Cheiro que provoca o aperto no peito, o senso de urgência, a necessidade de agir com o receio de se mexer.

Faço dos cheiros minhas marcas registradas, que são partes essenciais das minhas historias, fragrâncias que exalam sensações, sentimentos. E quando menos espero, eu posso sentir em qualquer lugar o tal determinado cheiro, e instantaneamente me lembro do exato instante que estava. E me parece uma lembrança mais forte que uma lembrança visual, que quase sempre me deixa na mão, impedindo-me de lembrar dos rosto exatos, como se nunca tivesse olhado nos olhos de quem quero relembrar. Ou até a memoria auditiva, que sempre guarda o modo exato que aquela pessoa especial se expressa, mas em hipótese alguma me deixa ouvir o tom da voz. Talvez seja assim porque não sinto necessidade de guardar a lembrança sensorial, nem mesmo sei como fazer isso, ela naturalmente se mantém preservada. E ela é a única com a lembrança fiel. O que foi sentido, da mesma forma vai se manifestar, quando a recordação resolver voltar.