Descarte as maçãs podres

A época da informação em rede e despolarizada trouxe mudanças significativas na fluidez da comunicação que, antes maturada e unilateral, agora tem como premissa a instantaneidade e o diálogo. Obviamente o excesso de informação é oneroso por um lado (para provar isto, basta notar o preocupante poder das fake news na última corrida presidencial norte-americana), mas também benéfico ao trazer para a superfície problemas que merecem discussão.

As discussões, diga-se de passagem, são muito bem-vindas no mundo das trocas cibernéticas, habitado por uma população que por muito tempo ansiou por falar, escutar e compartilhar diferentes pontos de vista, cuja representatividade da mídia tradicional, baseada em hits e blockbusters, nunca foi suficientemente representativa. É a ampliação de vozes que sempre existiram, mas que ganharam nova potência com a sociedade em rede (e online).

Como habitante deste mundo tecnológico, deparei-me há poucos dias com uma notícia sobre o recém-lançado site Rotten Apples. A revista norte-americana Vanity Fair resume apropriadamente a plataforma como um “Rotten Tomatoes após a reviravolta de Weinstein”, fazendo referência ao site de crítica cinematográfica Rotten Tomatoes e às denúncias de assédio sexual dirigidas a Harvey Weinstein: “ingredientes” importantes para o entendimento da plataforma.

O jornal The New York Times explora a gravidade dos casos envolvendo o produtor norte-americano ao afirmar que a lista de agressores acusados ​​de má conduta sexual tem crescido de forma vertiginosa, particularmente em Hollywood, após a revelação dos episódios envolvendo Weinstein. Desta forma, podemos considerar que a desconstrução da figura inatingível do réu foi o ponto de partida para um momento histórico de empoderamento feminino e repúdio a abusos de ordem física e psicológica.

A missão do Rotten Apples, neste sentido, é oferecer um filtro àqueles que desejam fazer parte de uma audiência mais seletiva e politizada, proporcionando aos usuários duas categorizações: maçãs frescas e maçãs podres (fresh apples ou rotten apples). O rótulo “maçãs podres”, ponto focal da iniciativa, é dedicado a produções audiovisuais que possuam sujeitos acusados por má conduta sexual.

Em entrevista para a Vanity Fair, a diretora criativa do site, Annie Johnston, deixa clara a “tentativa de empoderar pessoas com informação”. Também é sinalizado no site o propósito de “facilitar um consumo de mídias éticas”.

Como esperado, realizei um teste. Após a inserção dos nomes de alguns filmes ficha-limpa, adicionei propositalmente no campo de busca o título do filme Don Juan DeMarco (1994), cujo elenco tem nomes como Johnny Deep e Marlon Brando. Certeiramente, o nome de Marlon Brando foi apontado como “maçã podre”. Fui direcionada, através de um hiperlink, para uma notícia do jornal americano The Washington Post que denunciava a perversa veracidade por trás da cena de estupro sofrido pela atriz Maria Schneider durante as filmagens do longa O Último Tango em Paris (1972). O caso só teve repercussões tangíveis recentemente, o que preenche as entrelinhas desta história com mais mal-estar.

Vale destacar que na proposta do site está explícito que o banco de dados ainda é imperfeito, e que os resultados não devem ser tomados como fatos. Cada link é proveniente de um artigo existente e não apresenta opiniões pessoais da equipe que gerencia a plataforma. Ainda, a equipe Rotten Apples convida os usuários da plataforma a reportar possíveis erros ou nomes ausentes para que sejam feitas as correções o mais breve possível. Desta forma, entende-se a característica colaborativa do site e também o compromisso do internauta em ser analítico quanto a confiabilidade das fontes e dos fatos apresentados, sendo todos os usuários convidados a promover a adequação do conteúdo.

Isso explicaria a ausência dos nomes de Bernardo Bertolucci ao visualizarmos o resultado da pesquisa de O Último Tango em Paris (1972) e, também, o nome de Johnny Deep, protagonista de Don Juan DeMarco (1994).

De modo geral, é possível concluir que a criação de recursos como o Rotten Apples se valida na entrega ao grande público de um poder de decisão muito particular, mas ao mesmo tempo, totalmente coletivo. É o poder de nos questionarmos, enquanto audiência, o valor da idolatria em detrimento de todo um universo, por vezes sombrio, que ocorre nos bastidores. É, também, entender que as nossas escolhas podem direcionar a indústria cultural a um novo caminho, mais ético, humano e justo.

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