A internet que a gente quer:

Publicado originalmente no contente.vc/blog

Em andanças por Pomerode, SC

De uma avó andarilha, herdei inúmeros sotaques na família e o costume de fazer longas viagens de ônibus. Somos uma família espalhada pelos mais diferentes estados e, vira e mexe, ainda em movimentos migratórios. E apesar das longas distâncias, somos próximos. Ser neta dessas andanças, me trouxe vários questionamentos. Um deles é que, de tantos lugares para se viver pelo país, concentramos esse mundo infinito de pessoas nos grandes centros urbanos do Sudeste. Vir morar em São Paulo confirmou essa percepção; uma cidade fruto de uma centralização desumana de gente. O “ter de ir pra SP” nunca foi um discurso entre parentes. Aliás, eu sou a primeira a morar no estado. E aqui me encontrei com muitas pessoas com saudades e sonhos de seus lugares: que muitas vezes habitam as memórias de seus avós nordestinos, os dias de férias a beira mar em Ubatuba, os domingos no sítio do tio no interior de Goiás, os almoços tragos pelos amigos em isopores de Belém.

Já reparou como esse lugar de lembranças é inspirador? Quanta gente caminha em sua direção em busca de montar um restaurante, fazer uma música, escrever um livro, filmar um documentário? É isso que buscamos estimular pelo Andarilha, que os percursos artísticos permeiem nossa cultura de ponta a ponta, através de um território muito mais do humano, do afeto e da memória. Compreendemos que, para além de sermos Norte, Sul: somos trajetória. E, se isto é mais rico que viver aqui ou ali, como fazer com que as oportunidades sejam também desterritorializadas?

Existem muitas questões políticas e sociais que envolvem essa pergunta, porém, há nos discursos artísticos e culturais que mapeamos, uma força motriz essencial para a desterritorialização: valorizar os saberes cotidianos e as histórias de vida. Se olharmos para o lugar onde vivemos e de onde viemos com mais inspiração, inquietação, questionamento, haverão alí ideias, soluções, e então: oportunidades.

E SE A INTERNET QUE A GENTE QUER FOSSE FERRAMENTA ÚTIL NA DESCENTRALIZAÇÃO TERRITORIAL DAS OPORTUNIDADES?

Andarilha, como uma plataforma que nasce online, surge justamente dessa internet que a gente quer. Não só por salvaguardar os percursos artísticos de pessoas pelo Brasil, mas também por conectar essas pessoas. Somos uma rede que tenta trafegar por essa pergunta e levantar outras muitas. Será que a internet pode ajudar de alguma forma um fotografo que quer viver no interior de Pernambuco a ter tantas oportunidades quanto um que vive na capital? Será que estar conectado ajuda de alguma forma quem está na periferia a ter oportunidades como quem está nos grandes centros?

Recentemente, estive em uma roda de conversas com mestres do Carimbó em Belém do Pará a convite de Isaac Loureiro, pesquisador cultural e coordenador-geral da campanha Carimbó Parimônio Cultural Brasileiro. Todos discutiam sobre um edital de cultura cujos registros e as documentações eram feitos principalmente por áudios e vídeos de celular pelos próprios mestres. Observe, a internet aqui não era apenas uma ponte de conexão para se chegar em territórios distantes ou para simplesmente facilitar as dificuldades de apropriação da linguagem específica dos editais por parte dos participantes. A oralidade de suas histórias, o gingado de suas danças, os sotaques de suas músicas, tudo isso foi garantido pelas ferramentas de conexão atuais, entre elas, a internet.

Conversando com a renomada fotógrafa Maureen Bisilliat, pergunto: “se a maioria dos artistas que entrevisto a citam como uma das principais influências em registros de brasilidades, quem é a sua grande referência?” O que a inspira são os moradores dos lugares que antes ela visitava e que agora são fotógrafos e documentam seu próprio cotidiano. Finalmente, para muito além de construir pontes para que as oportunidades cheguem até tais pessoas, são elas mesmas quem constrõem suas oportunidades e, através também da internet, as potencializam.

Nesse sentido, Andarilhamos. Em encontro a pessoas que, em seus fazeres, estimulam um olhar para a família, em busca de inspiração; para o cotidiano, em busca de referência. A internet é um dos caminhos — e muitos outros são tão importantes quanto. Mas foi através dela que conheci uma amiga com quem criei o meu primeiro site em 1997. De lá para cá, fiz novas conexões, aprendi outras tecnologias, mas a minha vontade de descolonizar olhares e desterritorializar oportunidades fez morada.

Like what you read? Give Ana Luiza Gomes a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.