O brincante como corpo-manifesto

Festival Pequenas Sessões, 2015. Foto: samuelMendes.com

Seja transformando o carnaval de rua de BH; seja pulverizando duelos de MCs pela cidade em espaços públicos marginalizados; seja mobilizando queimadas, ou melhor, gaymadas, na Avenida Afonso Pena durante o dia; movimentos de ocupação se transformam em verdadeiros parangolés e maracatus, corpos populares ativos e agentes de manifestação. Todo o diálogo entre os participantes da mesa me fez pensar sobre uma figura central da cultura brasileira: o brincante.

Depois dos 20, raramente escutei a palavra “brincar” na voz de adultos próximos até que um dia, em plena a Festa do Boi na região do Morro do Querosene, em São Paulo, ouvi: “vou ali brincar”. Quem disse foi uma querida amiga que está na casa dos 50 rumo à dançar junto aos tambores. Não me esqueço que no filme Tarja Branca um dos brincantes entrevistados segura sua fantasia e confessa em meio a risadas: “largo a minha mulher mas não deixo de brincar”.

Em quantas histórias de manifestações culturais populares, ainda presentes e centrais em alguns locais pelo interior do país, o ato de ocupar as ruas se faz no fantasiar, dançar, cantar, pular, duelar? Talvez o estranhamento de ouvir o verbo “brincar” em territórios tão urbanos tenha me feito pensar que o corpo, nas grandes cidades como Belo Horizonte, tenha mesmo se estagnado como ocupante apenas de shoppings e carros. Por muito tempo, talvez, o brincante tenha ficado guardado para aqueles poucos dias de carnaval em férias.

Há muito que este corpo quer voltar a habitar. À várias mãos, à pé, em pedaladas, de salto. De manhã ou à noite. Na cidade, nas ruas, nas praças e, de preferência, de graça nos ônibus. O brincante é muito mais que um folião. Ele é autor do não confinamento de seus desejos e manifestações — expressão criativa de transformações importantes.

Que a cidade recupere esse brincar e se inspire nos grandes Mestres pelo Brasil. Que Belo Horizonte e outras grandes capitais revivam não apenas seus carnavais, mas tantas outras manifestações culturais. Que essas ações, aliás, também questionem o sentido contemporâneo do que se apresenta como tradição. Que se reinvente o brincante, mas que ele volte para estar!