Por que você fotografa? Gabo Morales

Marsilac por Gabo Morales

Em seu trabalho autoral, Marsilac, você mostra uma São Paulo verde. Como você chegou ao local e à ideia de criar esse trabalho? Como é fazer esta pesquisa fotográfica durante mais de 5 anos?

Eu estava em busca de um território onde trabalhar. Qualquer território, em qualquer sentido. Em 2012 tive uma pequena revelação quando fazia uma pauta como repórter fotográfico de um jornal. No extremo da Zona Leste, enquanto — eu e o motorista — aguardávamos a chegada de um personagem da reportagem, comecei a prestar atenção no movimento na rua. Era uma avenida comercial cujo nome desconheço até hoje. Bem movimentada. Pessoas com sacolas olhando as vitrines, outras apenas passeando, padarias e bares cheios, muitos carros estacionados, documentos debaixo do braço, entregas sendo realizadas. A revelação foi descobrir que aquela rua era um centro, onde gravitavam interesses da comunidade dos arredores.

Marsilac por Gabo Morales

São Paulo tem seu centro, a Sé, mas cada região tem seu sub-centro, cada bairro sua rua comercial, cada punhado de quarteirões sua padaria. Muitas vezes não é preciso sair de sua comunidade imediata para viver do necessário. Essa iluminação banal me vez ver com outros olhos a forma como eu via e vivia na cidade. É preciso ver e viver para além do hiperlocal. O meu bairro era essencialmente o centro da minha vida urbana, a partir dele eu crio expectativas, vieses e opiniões que aplico a toda metrópole, mas que nem sempre fazem sentido cinquenta quarteirões adiante. Por sorte, é um bairro central — Santa Cecília –, onde é mais fácil ter acesso à infraestrutura necessária para viver com alguma qualidade. A partir dali eu experimentava a cidade, mas se eu estivesse morando no bairro mais distante do centro real, ainda assim teria que transformar aquela comunidade no centro da minha vida paulistana?

E qual é o bairro mais distante, mais isolado da cidade? Marsilac. Então eu fui até lá e comecei a fotografar a experiência de viver ali. Tanto para entendê-la, quanto para aprimorar a minha experiência da cidade. Desde sempre, evitando chamar aquele distrito, nem que informalmente, de outra cidade. Parece outra cidade? Não sei, mas certamente não é. Marsilac é tão São Paulo quanto a Sé, depende apenas de que discurso você quer favorecer. Se o meu discurso é que cada canto da cidade tem suas próprias zonas gravitacionais, se cada bairro reúne a comunidade em um centro, não faz sentido resumir São Paulo como uma coisa só: cinza, verde, cosmopolita, provinciana, conservadora ou progressista. Fotografia não é estatística, para abraçar as características da maioria e sustentar seu discurso. Ao mesmo tempo, é um desafio colocá-la a serviço da complexidade.

Marsilac por Gabo Morales

Sempre vi as coisas assim: para quem vive no centro, Marsilac é o fim da cidade. Para quem vive no Marsilac, ali é o começo da cidade. Lógico que meu trabalho não é ficar fazendo semântica. É político também, no sentido que eu busco questões que tornam mais verdadeira a tese de que Marsilac é o fim. O distrito é duplamente isolado: a cidade para consigo e vice versa. Há pouca infraestrutura, principalmente transporte, mas também poucos equipamentos culturais e sociais, particulares e públicos, para a comunidade. A natureza é abundante, mas uma composição de trem carregando milhares de toneladas de soja e minério de ferro pode passar a noite fungando a alguns metros da janela do seu quarto.

A ideia de fazer isso em cinco anos — no mínimo — é porque eu quero ver se há mudanças na experiência de viver no Marsilac. A vida urbana é muito dinâmica, mas Marsilac é uma zona híbrida, nem tão urbana, nem tão rural. O que acontece naquele território em cinco anos? O que muda, o que fica como sempre esteve. Eu achei meu território, meu espaço de trabalho, agora estou tentando entender seu tempo.

Lendo o livro “Por que as pessoas fotografam” de Robert Adams, te pergunto: por que você fotografa?

Provavelmente não tenho uma razão única; e se tivesse, não seria uma razão muito poética. Eu preciso me expressar de alguma forma que não exija muito da minha natureza introvertida; é algo sobre o qual não tenho controle. Já toquei instrumentos, escrevi contos, desenhei… mas nada disso com o mínimo de proficiência necessária para transformar o meu discurso em algo interessante, relevante ou valioso para os outros. Quando decidi começar a fotografar de verdade, acho que era um modo de exercer essa necessidade íntima sem precisar de uma grande técnica para atingir as pessoas — mesmo que poucas pessoas. E como transformei isso na minha profissão — talvez ingenuamente — eu também fotografo porque preciso viver.

Leia a entrevista completa em: http://projetoandarilha.com/gabo/

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