O mundo queima enquanto nos afogamos

“Clarisse?”

Não.

“Você está bem?”

Fique longe.

“Abra a porta!”

Não, não, não.

“Clarisse, vamos! Eu quero entrar no carro!”

Eu sei que é isso que ele quer. Por isso, continuo de cabeça baixa, fingindo que estou adormecida. Ele dá um tapa forte na janela traseira, grunhindo irritado. O barulho alto de pele chocando-se contra vidro não me sobressalta. A voz dele soa tão abafada e distante…

“Certo, então. Vou ficar esperando aqui até você parar de birra e abrir a droga da porta.”

Escuto quando ele se encosta no carro. Consigo visualiza-lo neste momento: jogando o cabelo para trás, bufando de raiva e revirando os bolsos atrás de cigarro. Antes, pedia para ele parar de fumar, mas agora creio que sou o motivo desse mal hábito ser perpétuo. Sou uma companhia estressante e cansativa afinal. Parei de reprimi-lo, já que o verdadeiro problema não é a nicotina, e sim eu.

Está começando a ficar quente dentro do carro. O ar-condicionado não está funcionando direito, então apenas estávamos deixando as janelas abertas para o vento da estrada. Não posso abri-las agora, pois Jeff está do lado de fora. Mas talvez só uma frestinha…?

Meu amigo percebe a pequena abertura e enfia os dedos da mão livre (a outra tinha um cigarro, como imaginado), impedindo-me de voltar atrás. Sou tão estúpida.

“Clari, abre. Eu não estou irritado com você, acredite.Daqui a pouco seus pais devem ligar para polícia procurando por você, então temos que estar bem longe já.”

O olhar dele é triste, com um pouco de pena no meio. Odeio quando sentem pena de mim, e isso é algo terrivelmente comum, pois minha aparência nunca foi realmente das mais saudáveis. Sempre tenho machucados pelo corpo e olheiras sob os olhos. Depois de me conhecer, Jeff passou a ter olheiras sob os olhos também. Hoje, elas estão mais fortes que o normal, por ter passado a noite toda dirigindo. Partimos ontem, às seis da tarde, mas só na hora do almoço, que ele achou seguro fazermos uma pequena parada. Sua aparência expõe todo o cansaço. Roupas amassadas, barba começando a surgir, lábios ressecados e rachados. Apesar de tudo, ele continua bonito. Às vezes me pego pensando se a convivência excessiva comigo vai fazê-lo perder a beleza que ele não sabe que tem, assim como vai fazê-lo perder os pulmões.

Ponho o cabelo atrás da orelha, puxo o pino e as portas destrancam.


Estrada: lugar dicromático porém homogêneo, onde perde-se a noção de tempo. Ora vem, ora vai, e cada hora parece mais longa que a anterior.

O vento balança meus cabelos e o sol machuca minha pele. Sou muito branca, num tom pálido mórbido. Sou magra também, sem busto e com as costelas protuberantes. Sou doentia.

Olho para o lado, observando meu querido amigo, a única coisa que me resta do passado. Ele e seu carro de duas portas. Cabelos pretos até os ombros, pele clara, alto até demais. Jeff, o rapaz que resolveu abandonar a faculdade, o emprego, os colegas do bar… Tudo para me levar para longe. Tão bonito e convicto, uma amizade verdadeira. É tão difícil achar pessoas capazes de se entregar de forma tão profunda num mundo onde apenas a superfície basta. De vez em quando, aperta com força o volante, os dedos ficam brancos com a pressão.

Queria pedir desculpas mais uma vez por fazê-lo passar por isso, mas na última ele me mandou calar a boca. Consigo quase ouvir a mente dele trabalhando, elaborando milhares de possibilidades para o futuro que teremos. Mas é tudo fora de controle, com muitas desgraças, desde ficar sem dinheiro até virar procurado da polícia no país. Jeff é muito ansioso, então deixar rolar é impossível.

Encosto a cabeça na estrutura de ferro do carro. Está quente, porém suportável. O sono toma conta de mim e, apesar de lutar contra ele, acabo cedendo. Meus olhos se fecham e sinto uma moleza deliciosa em meus membros. Pela primeira vez em muito tempo, me sinto segura.


Estou começando a me re-convencer de que isso foi uma boa ideia. Clarisse está dormindo há horas, já até escureceu. Estacionei nos fundos de um posto 24 horas e acho que vamos acabar passando a noite por aqui. Comprei um refrigerante na lanchonete e outro maço de cigarros. Encosto-me no carro, tentando me tranquilizar com a bebida e o fumo. Estive o dia inteiro a um passo de um ataque de nervos. Não faço a menor ideia do que estou fazendo, só sei que não aguento mais.

Não consigo mais saber o quanto ela chora, passa dias sem comer ou dormir. Não quero mais emprestar casacos para que ela cubra os braços cheios de marcas roxas escuras, ou vê-la puxar uma bolsinha de maquiagem para esconder os machucados no rosto. Quando ontem ela foi na minha casa, dei-lhe uma calça jeans minha, porque não suportei olhar para os hematomas que estão em suas coxas.

Chorei. Não na frente dela, não sou egoísta a esse ponto, mas assim que ela adormeceu, perdi a cabeça. Para onde vamos? O que faremos? Cheguei a acreditar que foi um erro. Agora, percebendo a respiração tranquila e o sono profundo, encontrei a única certeza que tenho desde que entramos no carro ontem à tarde:

Eu devia ter feito antes.

Acabo de tomar meu refrigerante e puxo um cigarro da cartela. Acendo-o e puxo o ar, sentindo o ardor tão familiar e costumeiro em minha garganta. Sempre fui estressado, ansioso, então costumo buscar o estável. Já tentaram diversas vezes me convencer que fumar é um vício, inclusive Clarisse, mas sei que é mais do que isso. É uma estabilidade.

O celular vibra no meu bolso, entretanto eu simplesmente ignoro. Está chovendo mensagens e chamadas desde o meio da manhã. Acho que vou desligá-lo.

Percebo a movimentação da garota dentro do carro e abro a porta o mais silenciosamente que consigo. Ela abre os olhos lentamente, as íris verdes imediatamente voltam-se para mim. Alguns fios ruivos estão grudados no rosto, um pouco amassado pela longa pressão. É uma visão linda, saber que ela fica tranquila para dormir perto de mim é o maior elogio que eu poderia receber.

“Olá.” ela sorri “Onde estamos?”

Sorri de volta.

“Interior de São Paulo.”

Ela balança a cabeça e boceja.

“Está com fome, Clari?

“Com certeza.”

Aviso-a a respeito da lanchonete e ela me convence de ir lá e comprar a comida, com o argumento de que os jeans dela estão muito compridos e assim corre-se o risco de tropeçar. Preguiçosa. Escolhi dois sanduíches de queijo com presunto e água. Pareceu-me o suficiente, principalmente porque não podíamos gastar muito. Sentados no carro, comemos em silêncio. Um desconfortável silêncio.

Quando acabamos, Clarisse dividiu o conteúdo da garrafa em dois copos de plástico e deu um para mim. Tomei o líquido rápido, estava morrendo de sede e nem tinha percebido. A ruiva do meu lado bebericou um pouco e logo depois passou a cutucar a beira do copo, arrancando pequenas lascas.

“Então…” começou ela “E agora?”

Seu olhar estava fixo no copo, evitando o meu. Respirei fundo para tentar atrasar a resposta que ainda não existia. Meu coração acelerou e senti um peso em meu peito.

“Não sei.”

Clarisse assentiu e voltou a olhar-me nos olhos. Eu consegui ver o quão perdida estava, o quão cansada. Era esse o olhar que ela carregava por aí no dia-a-dia, o olhar que me fazia ficar acordado à noite tentando imaginar o que estaria acontecendo com ela naquele momento. Um nó formou-se em minha garganta porque eu não sabia como fazê-la se reencontrar. Nem eu estava me encontrando. A ruiva deve ter percebido minha angústia e me puxou para um abraço, ao qual eu cedi prontamente.

“Não tem problema, Jeff. Tudo bem que você não saiba o que fazer de vez em quando, tudo bem perder o controle. Pode chorar, eu estou aqui com você, eu não vou te deixar.”

Acho que nunca chorei tanto na minha vida. Começou com um soluço lânguido, e logo evoluiu para uma crise. Cheguei a falar coisas desconexas, alegar que queria morrer. Ela se entregou ao drama também e juntos ficamos ali no carro, nos afogando em lágrimas com respirações descompassadas.

Meu celular vibrou novamente e eu o quebrei.

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