A Náusea, versão 2016

Para início de conversa, digo que estou grávida. De dois. Há quase três meses. Tenho enjoado diariamente desde que soube da notícia. Já me acostumei a chamar o Hugo de manhã, à tarde e, de vez em quando, à noite. Ainda assim, eu como. Engulo. Há coisas que ainda me descem. Chá mate gelado. Torrada com ovo mexido. Guaraná zero. Queijo quente.

Mas não é sobre isso que eu quero falar. O problema é que, desde domingo, estou com uma náusea mais intensa. Uma náusea que mais tem a ver com aquela que Sartre descreveu em “A Náusea”, de 1938. São aqueles dias que passam quase despercebidos, todos iguais, uma monotonia sem fim, vendo as mesmas coisas, ouvindo as mesmas ladainhas, as mesmas queixas das mesmas pessoas, seu dia-a-dia fechado numa caixa pequena, olhando as paredes, ouvindo aquelas vozes gritantes, que inundam a mente, o cérebro, a tua paz.

Ficar grávida tem disso, eu não sabia. Se acontecer de você engravidar de gêmeos, pode ser que você sinta um enjoo tão forte a ponto de não conseguir se sentar em frente ao computador. A única posição viável é a horizontal, a única ação possível é o repouso — ou seja, a não-ação — , e o único pensamento capaz de te consolar é: tudo isso vai passar. Quando você completar três meses de gravidez, para ser mais exata. Até lá, babe, so sorry.

Daí que emerge uma crise política no seu país e você se vê inundada de lixo mental das pessoas que nada sabem e nada entendem de política. De cidadania, eu quero dizer. Que nada entendem — e fazem questão de ignorar — o que é um programa social e qual a importância disso nas sociedades mais avançadas do mundo, o significado de direitos humanos em sua essência, ou até mesmo a noção de moral, o respeito às mulheres — e sobretudo à primeira mulher a se tornar presidente de um país — , a diferença entre descontentamento e cólera tresloucada, enfim, parece que as pessoas não sabem evitar meter os pés pelas mãos (a expressão, segundo o dicionário, significa agir desajeitadamente ou com pressa, confundir-se no raciocínio).

E então todo mundo começa a acreditar que tirar uma presidente do seu exercício vai resolver todos os problemas de um país. Que enfiar um vice-presidente traidor junto de um evangélico de araque no mais alto cargo vai fazer com que a crise econômica, cuja raiz também está ligada à crise da China e à do petróleo mundial, é bom lembrar, seja resolvida em três tempos. E dá-se poder a mais partidos envolvidos em escândalos de corrupção e a nomes ligados a esquemas como a Lava Jato, à contas no exterior, entre outras pilantragens, enquanto praticamente toda a mídia internacional é unânime em dizer que a única pessoa presente neste processo que NÃO está envolvida em enriquecimento ilícito é Dilma Rousseff, justamente aquela que todos querem execrar.

Por quê?

Ontem mesmo, no dia seguinte à admissibilidade do impeachment, os jornalistas da Globo estavam claramente muito orgulhosos da postura do vice Michel Temer, dizendo que ele estava sereno, discreto, que não havia feito nenhum pronunciamento sobre o ocorrido, apenas aguardando os fatos se desenrolarem. Oi? O cara acabou de vazar um áudio do WhatsApp sobre seu próprio discurso que já está pronto há tempos, fica todo felizão comemorando a votação na Câmara dos Deputados, enquanto aqueles senhores que deveriam estar representando a sociedade faziam homenagens aos filhos, às esposas, a um torturador assassino (!) e à Deus (Deus tá vendo!), e ainda por cima tem aquela história da…carta “à presidente”, que também “vazou”. Ora, faça-me o favor. Se não é homem para assumir seus atos, como quer virar presidente de um país?

Bom, eu só sei que aquela náusea foi crescendo, crescendo. Em vez de chamar o Hugo, eu resolvi encarar a tela branca do computador. Algo que não tenho conseguido fazer por mais de uma hora desde que engravidei, mas, diante das circunstâncias, não me resta outra alternativa. Sou filha de uma mulher que foi torturada pela ditadura militar, cuja audição ficou comprometida pelo resto da vida, sou jornalista (apesar de estar prestes a me despedir desta profissão ingrata, visto a podridão que hoje toma conta dela de forma crescente, como se isso fosse ainda possível) e, sobretudo, sou uma cidadã. Não dá para engolir tanta estupidez.

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