Glacê

Júlia fazia flores de glacê enquanto pensava em um das suas músicas preferidas. Por cima da mesa coberta com uma toalha verde, os pequenos bolinhos eram coberto por flores coloridas. Olhando o pequeno jardim comestível, Júlia repassava na cabeça o que ainda precisava ser feito até a entrega dos bolos mais tarde.

Até então, o dia estava indo bem. Os bolos grandes estavam assando na cozinha. Os pequenos já estavam confeitados e descansavam na mesa da sala. Nenhuma lágrima havia sido derramada e o sol brilhava lá fora. Tudo ia seguir bem até o começo da noite. Depois dos bolos entregues, Júlia iria para casa bem devagar para evitar encontrar com Nina.

Fazia um mês que as duas não se viam. A última vez foi no dia que Nina falou que estava indo embora, que não via mais futuro para as duas. Não quis dizer se estava apaixonada por outra pessoa. Só deu a entender que o amor acabou. Agora tinha que lidar com isso. Essa seria a última vez que Nina entraria na casa e levaria todas as suas coisas. A maioria delas azul turquesa, sua cor favorita.

Desde que Júlia se viu sozinha naquela casa, trabalhar tornou-se uma questão de sobrevivência. Enquanto pensava nos bolos que precisava fazer, não se lembrava que a estante tinha, de uma hora para outra, ficado com várias prateleiras vazias.

Júlia adorava a surpresa que as mudanças podem causar na vida, mas aquela não havia sido desejada. Poderia ter ficado com Nina para sempre, mas ela não quis. E assim o azul turquesa ia embora de pouco em pouco.

Quando Julia estava na cozinha e o jardim todo pronto na mesa da sala, uma chave girou na fechadura da entrada do apartamento. Era Nina, chegando horas adiantada. Nada havia preparado Júlia para aquilo. Ela ficou paralisada, esperando Nina aparecer na porta da cozinha.

A expressão de terror no rosto de Júlia fez Nina perguntar se ela estava bem. Júlia não soube o que responder. Estava tudo bem até um segundo antes de Nina entrar no apartamento. Não era para ela estar ali agora. A parte triste do dia deveria ser só mais tarde.

Júlia perguntou o que Nina estava fazendo ali àquela hora. Ela disse que resolveu ir mais cedo para ver como ela estava. Reclamou do calor e abriu a janela da sala. Perguntou se havia uma caixa onde ela pudesse colocar as coisas que levaria embora. Júlia não disse nada. Ficou na cozinha, separando claras de gemas. As mãos tremiam. Algumas gemas não se separaram das claras do jeito que deveria.

Júlia pôs as mãos no balcão da pia e se culpou por tudo que estava acontecendo. Seis meses atrás, ela tinha um bom emprego e tinha Nina. Resolveu que não queria mais ficar cinquenta horas por semana dentro de um prédio, sem vista para o sol e para a chuva. Depois de quinze anos assim, era hora de procurar outras coisas.

Pôs em prática, então, um conselho que recebia há muito tempo: venderia bolos e doces. Coisas boas que as pessoas querem ter por perto nos momentos de alegria e comemoração. Quando as encomendas começaram a fazer com que ela passasse muitas madrugadas na cozinha, Júlia pediu demissão e saiu do trabalho. Algum tempo depois, Nina resolveu que iria embora. E no dia que ia pegar o resto das suas coisas e sumiria para sempre, resolveu aparecer horas antes do combinado no apartamento que havia sido delas por quatro anos.

Júlia ainda tentava não admitir para si mesma que as coisas andavam melhores desde que Nina se foi. As massas dos bolos cresciam mais, as coberturas atingiam sempre o ponto certo. Alguma coisa sempre acontecia quando Nina estava por perto. Ela parecia tirar um pouco a Terra do ponto de equilíbrio. Era como se as leis da natureza de repente não valessem mais e nada saía como esperado. Ficou surpresa por nunca ter notado isso antes.

De pé na cozinha, Júlia tentava manter a calma. Olhava em volta e tudo parecia bem. Os bolos ainda estavam assando, precisavam de só mais dez minutos para ficar no ponto certo para sair do forno. A claras estavam separadas para o glacê. Esperaria Nina ir embora para começar a batê-las e não correr nenhum risco. Nada podia dar errado para essa encomenda. Contava mentalmente para não perder o controle da respiração.

Nina passou pela sala calmamente, recolhendo objetos e reunindo tudo em cima do sofá. Foi até a cozinha e perguntou onde estava a caixa que havia pedido antes. Júlia apontou para a caixa que costumava levar no carro quando fazia compras. Nina parecia feliz. Estava com cara de quem passou a manhã sorrindo. A vida parecia estar sendo boa com ela; nessa hora, Júlia respirou um pouquinho mais fundo e perdeu a contagem.

Quando Nina passou pela porta da cozinha para finalmente se despedir, Júlia pediu a chave da casa de volta. Nina desfez o sorriso, e o rosto perdeu a suavidade. Deixou a caixa no chão, pegou o chaveiro no bolso, tirou a chave. Estendeu o braço enquanto olhava para baixo. Júlia pediu que deixasse a chave no aparador. Virou de costas e abriu a porta do armário, fingindo procurar alguma coisa E ficou assim até ouvir a porta se fechar.

Lentamente, ela se virou de novo, como se tivesse medo do que fosse ver. Resolveu bater as claras em neve. Ligou a batedeira. Ficou pensando em Nina. Em como tudo às vezes é um pouco injusto. Reparou que as claras não atingiam o ponto certo de jeito nenhum. Sem reparar, derramara algumas lágrimas dentro da tijela. Clara molhada não vira neve.

Desligou a batedeira e sentiu uma ventania vindo da sala. De olhos fechados, respirou fundo e agradeceu o alívio ao calor, mas logo reparou que havia algo errado. Correu até a sala, e quase não acreditou no que viu: a cortina amarela agitava animada; uma bandeira açucarada. A tolha, perto da janela, também estava agitava, e uma das pontas havia voado por cima do jardim comestível.

Júlia foi tirando a toalha de cima do glacê meio derretido pelo sol. Os bolinhos se amontoavam uns sobre os outros. Um cheiro de queimado invadiu a casa. Tudo estava arruinado. Esta foi a última vez que alguma coisa deu errado na vida de Júlia. Mas agora ela corria para tirar os bolos do forno.