Suculenta

Juliana andava devagar na rua. Era janeiro e estava indo ao supermercado no começo da tarde. O porteiro do prédio que ela morava sempre falava “dona Juliana, não vai para rua agora, espera o sol baixar, tá muito quente lá fora”. Mas Juliana achava isso um absurdo. Ia fazer o quê enquanto o sol não abaixava? Não tinha nada para se fazer em casa.

Desde que se mudou para aquele apartamento, há uns quarenta anos, as coisas são mais ou menos as mesmas. Apenas a televisão e os eletrodomésticos mudaram, porque essas coisas foram feitas para estragar mesmo, disse Juliana uma vez. O telefone vermelho de disco também é o mesmo, mas hoje só serve para enfeitar.

Juliana achava ficar em casa muito entediante. Tudo o que lhe restava era ficar olhando para as pessoas nas fotografias pregadas nas paredes, apoiadas no móveis. Aquele monte de gente sorrindo em cores desbotadas e olhando para ela o dia inteiro. Precisava se ocupar para evitar de olhar para eles e se sentir vigiada. Ir para a rua e se juntar às pessoas jovens era a melhor saída, mesmo com o calor.

Resolveu sair para comprar sorvete no supermercado. Levou uma sombrinha, para se proteger do sol. Tirou do congelador uma garrafinha com água, que bebericava sempre que parava para atravessar a rua. Juliana se orgulhava de ser tão precavida. Talvez seja por isso que ela é uma das poucas pessoas do seu círculo de amigos que ainda está viva. Talvez a única lúcida, mesmo esquecendo vez ou outra onde colocou as chaves.

Apesar de andar bem devargazinho, seus passos eram firmes. Mas não era por sorte ou genética: fazia ginástica diariamente para poder andar sem medo por aí. Juliana considerava importante continuar a viver sem medo. O sinal estava aberto para os carros e ela esperava para atravessar a rua. Foi então que ela viu.

Ele estava do outro lado da rua, também esperando para atravessar. Juliana mal podia acreditar. Era ele mesmo? Não tinha mudado em nada. Parecia que não havia passado um dia desde que ele saiu com uma mala na mão e nunca mais voltou. E isso foi há muito tempo.

Juliana começou a tremer e sem perceber, a garrafa d’água caiu no chão. Ficou olhando para aquele moço tão jovem e tão parecido com ele. Aquilo não estava certo. Aquela pessoa não era ele. Não poderia ser. Alguém que estava ao seu lado perguntou a Juliana se estava tudo bem. Ela se virou e sacudiu a cabeça falando que sim. Quando virou de novo, o moço não estava mais lá.

Talvez ele tenha atravessado a rua sem ela perceber. Ou seguiu caminho do seu lado da calçada mesmo, já que o sinal não fechava para os carros de jeito nenhum. Quando Juliana estava se acostumando a ficar ali parada sob o sol, pensando no que tinha acabado de acontecer, o sinal abriu. Agora já podia seguir em frente de novo. Mas ela ficou por um breve momento tentando se lembrar o por quê de estar ali e para onde ela precisava ir. Deu um primeiro passo meio bambo, mas conseguiu manter-se de pé. Segurando a sombrinha, até pareceu aquelas equilibristas de circo, andando na corda bamba.

Você só pode estar caduca, Juliana, disse em voz alta, enquanto já estava em segurança do outro lado da calçada. Claro que aquele moço não poderia ser ele. Ficou um pouco na dúvida do que tinha visto. Será que aquilo foi real? Será que era algum neto, ou parente? O moço era realmente parecido. Aquela pessoa realmente estava ali parada ou foi algum tipo de visão? Espero que não seja uma alucinação, fui viver esse tanto para começar a ficar maluca, pensou.

Quase na porta do supermercado, se lembrou da primeira vez que o viu. A praia, as férias, a pele queimada de sol. Ele era uma das pessoas das fotos que vigiavam Juliana há décadas. Ele não foi o único marido que Juliana tivera, foi o primeiro de cinco. Há algum tempo já não se pensava nele. Estranhou o jeito que seu coração bateu forte quando achou que estava perto dele de novo.

Lembrou do Dia Assombrado. É como ela batizou o dia que ele, de mala na mão, foi embora porque o amor acabou. Assim, de um dia para outro. E ele disse isso com uma tranquilidade que assustou Juliana. Ela nunca tinha sido rejeitada antes. Chorou o Dia todo, até os olhos ficarem inchados. O amor dele tinha acabado, mas ela tinha o suficiente para os dois. Foi a última coisa que ela disse. Ele não disse nada, virou as costas e foi embora. E ela estava sozinha, pela primeira vez na vida.

Muita coisa aconteceu depois do Dia Assombrado. Casou mais quatro vezes. O último ficou até morrer. Juliana se orgulhava disso. Pelo menos um marido ficou até a morte os separar. Agora ela não queria mais saber disso de casar. Estava muito bem sozinha há dez anos, dizia sempre espalmando as duas mãos.

Lembrando de tudo isso, uma lágrima ameaçou cair, mas Juliana respirou fundo o ar frio da seção de congelados e nada aconteceu. Já havia chorado o suficiente no Dia Assombrado. Prometeu para si mesma nunca mais chorar por ele e iria cumprir a promessa. Tinha orgulho de sempre cumprir o que prometia e dessa vez não seria diferente.

Estava indo para o caixa com seu pote de sorvete napolitano nas mãos quando passou pela seção de jardinagem. Era um desses supermercados grandes e tinha uma área dedicada a plantas de vários tipos e tamanhos. Passando por uma prateleira, ela viu um vaso bem pequenininho com uma suculenta num canto. Era o último do seu tipo. Juliana parou e olhou para a planta tão verde ali sozinha.

Lembrou-se do Dia Assombrado e como tinha sido difícil se sentir sozinha pela primeira vez na vida. Juliana teve certeza que aquela era a primeira vez que a planta ficava sozinha também. Teve que respirar fundo mais uma vez. Não podia deixar aquilo acontecer. Agora que ela sabe que a planta está ali, naquela prateleira tomando luz artificial sozinha, precisava levá-la pra casa.

Passou o pote de sorvete para a mão direita, a esquerda já estava mais gelada do que poderia suportar. Agarrou o vasinho e pensou: preciso de um nome para essa planta. Ao mesmo tempo que achou a ideia ridícula, um nome emergiu. Denise. A planta se chama Denise.

E foi assim. A volta mais tranquila que a ida. Nenhuma lembrança para tirar as forças das pernas. Uma garrafinha de água nova. O pote de sorvete e a planta na sacola de plástico. Estava tudo sob controle novamente, pensou Juliana. Denise não ficaria mais sozinha.