Coisas

Poster by Naomi Weissman

Na casa da minha avó tem uma colher de ferro bem larga que sempre usamos para servir o arroz. Tão acostumada com a função, parece até que já vem com os grãos grudados nela. Nunca consegui decidir se é bonita ou não. Mas ela não precisa da sua aprovação. É o tipo de colher que começaria uma frase com “minha filha”. Ela não é só um objeto. Bem servida de história, já participou de mais almoços do que eu e você.

Na casa onde nasci também temos “a colher”. Deve ser de família. Mas essa não tem guarda compartilhada. É a colher da minha mãe. Segundo ela, quem prepara o café tantas vezes, tem direito a sua própria colher. Pequena, ela tem um cabo reto e achatado. Sem marca. Não faz parte de nenhum jogo. É única e faz questão de ser única. Enquanto as outras esbanjam simpatia com as suas curvinhas, ela é focada na função. Do tipo que não perde tempo com papinho. E a eficiência compensa: minha mãe faz questão de usá-la toda manhã. E a lenda da melhor colher é tão convincente que faz as outras colheres parecerem inúteis. No domingo à noite, lembro de preparar a mesa do café, ou fingir que estava ajudando, e ver minha irmã cuidadosamente escolher a colher certa para minha mãe. Justo. O único luxo das mães é inventar esse tipo de regra.

Na casa da outra avó, não eram colheres. O dono da cena era o pendurador de chaves. De ferro, grudado na parede, marcando o fim da escada em sintonia com a agilidade da minha avó. Estrategicamente colocado, ele nem pedia um olhar. Era como se a entregasse as chaves, entendendo que ela tinha coisas mais importantes para pensar e mão ocupadas segurando alguns de seus cachorros no colo.

Na casa da minha tia eram umas mini-toalhas de mão no banheiro. Muitas, arrumadas, cheirosas. Sempre organizadas com cuidado dentro de alguma cestinha. Tudo pensado. Acho que secar mãos não era a função principal delas. Era, na verdade, serem muitas, arrumadas e cheirosas. Toalhas que compunham um ambiente calmo. Até as preocupações se distraíam com elas.

Na casa da praia era um quadro: a tabela periódica. Não, a decoração não fazia sentido. E quem precisa de sentido tão perto do mar? O quadro de elementos ficava bem no meio da sala de jantar, onde se reuniam, depois de muito sol, sal e cloro, primos, irmãs, tias, pais e avó. Ninguém sabia dizer por que ele estava ali. Talvez o seu toque praiano fosse a única explicação: cada elemento químico era representado por um peixe diferente. Minha mãe conhecia quase todos e tinha pescado alguns. Por que Cálcio era um linguado? Jamais vou saber. Os dois universos do quadro eram o seu diferencial. Durante a minha infância, só via os peixes. No Ensino Médio, só os elementos.

Todas essas coisas que não são só coisas me fazem pensar como na minha casa nova ainda falta muita coisa. Ou melhor, história. A coleção Ikea 2017 ainda tem muitos almoços pela frente. Tudo tem cara de novo, porque eu também sou nova nessa história de morar longe. Objetos são partes de cenas. Tenho saudades da colher do arroz, da colher do café, das toalhas e da tabela periódica porque tenho saudades das cenas. Tenho saudades das cenas porque tenho saudades dos personagens.