Sinal para uma perdida

Vou contar a vocês o que me fez chorar. (Jo 11:35)

Um pouco da minha história, o lado podre, não o mais obscuro. Era uma verdadeira navegante querendo conhecer o mundo, sem apreciar os momentos com calma e sobriedade. Em meio a tantos vícios, fascínio tecnológico, consumo frenético de drogas, maconha, cocaína e lsd. Que caminho seguir, que escolha tomar, existem alternativas para alguém como eu? Queimei o filme com metade da cidade, pessoas ligadas diretamente a mim, me tornei um ser perturbado procurando “identidade”, sem bons amigos, influências e domínio próprio. Não restava nada de bom para mim, não nessa ordem cronológica de minha vida.

Cheguei a dormir em algumas “quebradas”, cheirava o pó que acabava de chegar por vezes, vários pinos espalhados para todos os cantos. Estava tomando gosto, procurei baladas lgbtq e pessoas que tinham as mesmas intenções. Meu primo havia saído da Fundação Casa, e estava morando conosco, tentando obter uma carteira de habilitação, claro que não prestou.

Desbocada, despudorada, pútrida por dentro refletindo ao lado de fora, tal qual, idêntica a um homem de beira de bar. Estava me transformando em um verdadeiro lixo humano, sem valores, intolerante e imprudente. Ainda dizem por aí, que o rico é mesquinho, pessoas hipócritas, generalizando sempre. Posso dizer que são pessoas que dão oportunidades, e muitos sabem o valor que tem o suor do trabalho duro.

Os pobres? Pérolas aos porcos. Além de serem pobres financeiros, muitos são pobres no espírito, não querem nem te ouvir, convictos de suas certezas, você somente é relevante quando têm dinheiro para interagir na roda, basta apenas possuir uma bebida ou um maço de cigarros.

Trabalhei, entretanto era um dinheiro escasso, minguado, cativei uma linda sucata, Suzuki Intruder 150, breve história de amor envolvendo várias multas de transgressões no trânsito, praticamente esbanjei com os “outros”, mixaria com a minha própria família, menos do que eles merecem. Em nome da vida boêmia.

Estive em lugares incomuns, inúmeras vezes, alguns picos e vários cantos, todos com um único propósito. Me deturpar, destruir, iludir, ficar mais louca e ensandecida que o Lobo e a Harley Quinn da DC juntos, viajem direta para Nárnia, de outro modo, País das Maravilhas de Alice. Em terra de ninguém, esquecendo tudo e todos, dos poucos compromissos à grandes responsabilidades, e assim sucessivamente sofrendo acidentes miseráveis, um após o outro, fazendo “lou(curas)”. Ocorreu que um deles, levei pontos nas duas pernas, nas duas panturrilhas, e o capacete partiu-se ao meio. Outros, ralei braços e pernas, relembro que ninguém se prontificou a me visitar para saber em quais condições me encontrava.

Noutros tempos, peguei minha mãe chorando como uma criança, do nascer ao pôr do sol. Rosto inchado, parecia estar perdendo o brilho dos olhos, dando lugar à olheiras de preocupação, não havia vontade nem de cuidar da própria casa com vigor, talvez apenas cozinhar. Velas acesas, tarde demais, não havia se quer mandado um sinal de fumaça, recado de terceiros, bilhete amarrado ao pé do pombo, sms, e-mail, qualquer coisa, passava-se dois à três dias. Através da minha “visão de mundo”, queria mesmo fazer a quebra dos laços, para ver se me tornava forte, ”independente”, engraçado que no fundo, sabia que nasci com a alma de um covarde, sentimental demais, me abalava facilmente, sacudia todos os pilares num piscar de olhos. Não encarnei para a maldade, quem viu falou, você não serve para isso. E dizia minha mãe: “Não minha filha, é perigoso, você tem que me ouvir”. Transformei ela na minha cabeça de borboleta, em um monstro autoritário. Sem dor na consciência, e fria, o tipo de pessoa que se fecha para não sofrer, e cria um muro enorme sobre a realidade. Bom, incontrolável em delírios, verdadeiro diamante bruto posso dizer, quando não me sobrava quase nada, e ela retirava os poucos recursos que ainda restavam, revoltada, pulava um muro facilmente, a pé ou de bicicleta, realmente não estava nem aí, minha filosofia arrogante que quase me levou para uma destruição completa, porque o abismo era logo ali, era o foda-se do tamanho do Brasil, para literalmente tudo. Minha médica ainda diz que deveria voltar a praticar esporte, sou medalha de ouro no judô, chorava muito quando perdia uma luta, sempre tenho bom desempenho em qualquer esporte, mamãe é testemunha, escrever tem me ajudado enquanto estudo, e não finjo que estudo. Poderia anexar aqui o jornal de notícias local, dizendo que uma mulher sofreu uma tentativa de roubo em um túnel e reagiu, a dois moleques empunhando uma escova de dentes enrolado em uma blusa, talvez um boletim de ocorrências de um homem de aproximadamente 35 anos, espancado por uma jovem de 18 anos porque bateu na esposa grávida, por auto defesa, don’t tread on me (não pise em mim). Esse sempre foi o meu lema, 柔道 (caminho suave), estava perdendo o auto-controle, é isso que a sociedade faz com você, a vontade de matar os demônios e depois me matar me atormentava. Lutar ou me entregar? Tudo ou nada, o que esperam de mim? Se quando caímos, é mais fácil rir do que estender a mão. Na fraqueza nos tornamos fortes. Se o choro dura uma noite a alegria vem pela manhã. Poderia vender algo de valor, comprar uma arma, pagar para picotar alguém e jogar ao fundo de uma valeta escura. Se eu que sou mulher, tenho essa conexão, imagina os psicopatas genocidas? O negócio é fazer um slackline com a vida, isso, aquele esporte que você se equilibra em cima de uma corda ou fita elástica amarrada sobre dois pontos. É difícil latir sem mostrar os dentes. Não conheço outro caminho a não ser o do senhor J, que veio especialmente para os doentes na alma. Sentimentais que sonham e que sofrem com a crueldade do mundo. Ter um problema como o meu, de auto nível de TDA-H (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e achar que religião, esporte e autoajuda resolve, sinto lhe informar que está profundamente enganado, primeiro passo, tire essa bunda da cadeira, vire um adulto sério e vá fazer uma consulta no psiquiatra, aceite que você tem problemas, seja lá qual for, existem milhares de seres humanos diagnosticados com distúrbios mentais e você nem sabe que tem, tomam remédio e vivem uma vida normal, dão aulas em universidades, administram seu próprio negócio, rezam a missa… Se não conseguir, vai apenas passar raiva e uma vida frustrada, achando que é um fracasso. O DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) acarreta várias outras doenças em seguida, faz as pessoas pensarem que você é lerdo, sugiro que leia Mentes Inquietas da autora Ana Beatriz Barbosa Silva, a 2ª edição é ainda melhor. Todos nós temos potenciais extraordinários, em qualquer área da inteligência humana, entretanto não somos nada sem o aprendizado e a humildade. Existem casos como o meu, que não se resolvem apenas com mente e espírito. O revoltado diz que o mundo é uma banca de apostas e de manipulação dos oprimidos. O artista tenta desconstruir a ciência a todo custo dizendo que é normal, mas ele mesmo nem Freud explica, vive em batalha interna e não aceita que é louco, mas chamar alguém de louco pode ser muito perigoso, é despertar a verdadeira loucura aprisionada no louco, algo como, “vamos ver se você tem mesmo bala na agulha, vou te mostrar o louco de verdade” sem nem se pronunciar diante do indivíduo. Uma palavra bem maldita de se dizer as pessoas, você pode quebrar as correntes e atravessar a carniça. Controle seus males, aprisione seus pecados, como faço com o glutão e o irado.

D’us teve muita misericórdia de minha’alma, esse amor mais forte que a morte me salvou, das noites escuras em que voltava sozinha para casa com sinais de embriaguez, e as caronas. Peço muito ao criador, que no futuro os sintomas da minha pequena caminhada não apareçam, aos poucos, gradativamente, me alimento de coisas boas, consigo pensar melhor e refletir minuciosamente. Nas pequenas coisas, seja em gestos, feições, nuances, dia após dia, desenvolvo ainda um senso crítico sobre o senso comum.

Minha família rezava e orava em desespero, pois a cada vez que chegava uma notícia minha, fazia com que todos eles se chocassem, desacreditados, alguns deles sofriam. Não há como negar, era como uma facada, dilacerando e rasgando o peito a quem me viu nascer e crescer. Ela mesmo não sabia mais o que fazer. Buscou ajuda de um amigo da família, que mora na capital de São Paulo, alá centro da selva de pedra. Ouso dizer, não depende somente dos outros, tudo que tinha era resistência, rebeldia, palavras duras de se ouvir, um egocentrismo patético. Absurdos saídos de minha boca, acidez para a pobre mulher que me pariu. Minha “educação” ou o pouco que eu tinha desapareceram, um verdadeiro animal irracional habitava em mim, não tinha modos para comer, falar, vestir, andar, mas sabia latir e maltratar todos ao meu redor. Por motivos realmente inúteis eu brigava, gritava, chutava, quebrava, bastava uma única palavra, causava uma reação em cadeia, o bastante para me fazer explodir, provocar histeria, e uma verdadeira tempestade em copo d’água. Semelhante a uma criança mimada. Perdida, não sabia o que estava sentindo, não conseguia diferenciar nada, definir nada, racionalizar, essa é a verdadeira bestialidade.

Não conseguia dizer a verdade, apenas omitir e colocar para fora o acusador, com uma língua maior que uma gravata Slim. Mas, certamente existem pessoas de bom coração, nobres, verdadeiros diplomatas, não se abalam e mantém o equilíbrio, algumas dessas pessoas possuem muita persuasão, conseguem entrar na mente das outras e tirar as vendas dos olhos que as cegam, capazes de mostrar que quem está em volta também é gente, fazem perceber o tamanho de uma formiga ao tamanho de um elefante. Alguém que inspira para o melhor e tudo de bom que há. Quando digo o melhor, quero dizer que conseguem reavivar sonhos, apontar caminhos, doar perspectivas a interpretações. Eduardo Shiroma, ajudou-me encarecidamente a despertar, e assim como os filósofos têm seus semelhantes, inspiradores, que impulsionam um elã tão maravilhoso, que consequentemente acabam refletindo em suas obras.

Desenhou carros para a empresa Ford, lançou alguns livros, palestrante, está em constante processo de aprendizagem e contribuição para com a humanidade, entre outras conquistas que me impressionam.

Motivos?

Ensinou-me o que é humildade de verdade. Não precisou fazer uma cartilha. Pois eu conseguia ser desumilde até na humildade zé! Haviam momentos em que eu queria pagar de, “a mais pobre do pedaço”, para que todos tivessem pena ou notassem o quão insignificante conseguiria ser, foi um curto período de tempo desfrutando de sua presença, tempo esse que pareciam mais anos, conversamos como amigos milenares, fomos a lugares que eu gostava no passado, academia de judô, capoeira, museus, ruas, avenidas, longas caminhadas, então inconsciente estava me recuperando e me fortalecendo cada vez mais.

Todas as manhãs acompanhei o vovô Seichum a feira da Vila Sônia, tenho boas lembranças, como a dos feirantes fazendo piadas e trocadilhos, casal de Italianos engraçados que moravam próximo, fui ver se eles tinham peças de computador antigas.

Quando voltei, definitivamente não era a mesma pessoa, não me reconhecia, nem quando olhava fixamente para meu reflexo, a máscara caiu, um verdadeiro despertar, duro como pisar no chão pela primeira vez, as coisas foram surgindo, amizades foram aparecendo, um novo circulo social, amor, solidariedade e princípios básicos para se ter uma convivência harmoniosa. Estava desintoxicando e regenerando. Cada um doou um pouco de si para mim. Antônio Carlos mon amour, me deu aulas intensivas sobre o grande Leviatã, e em dois anos, me atualizei, busquei informação filtrada, todos os dias vejo episódios diferentes, são muitos aprendizados. Permiti malícias das quais são fundamentais para sobreviver. Priscila Brun, me deu um grande espelho de presente, após o show do Rappa na Cervejaria do Gordo, foi como se ela tivesse jogado uma bigorna em minha cabeça, pesado foi que eu precisava de algo mais, esse algo mais era Jesus Cristo, foi quando milagrosamente consegui enxergar a beleza da vida outra vez, misteriosamente alguns de meus amigos também se encontraram com o pai, incluindo a ex namorada do meu namorado, alguém que tenho muito carinho.

Ele confiou a ponto de mandar-me levar documentos em lugares totalmente desconhecidos por mim, me fazendo enfrentar alguns de meus medos, nunca pensei, contudo tinha adquirido alguns pânicos, maus hábitos e esquisitices.

Andei sozinha em uma cidade que nunca tinha conhecido senão por mídia.

Parecia um bichinho grilo, deslumbrado com as grandezas da grande cidade. Depositou confiança ao me pedir para levar documentos de extrema importância, de alguns anos, como plantas e arquivos sem cópias. Sucesso em minhas missões diárias! Algumas experiências na Augusta, amizades passageiras.

Falamos de tecnologia, Arduíno, Raspberry pi, Inteligência Artificial, inclusive cerrei uma tábua inteira como ninguém, digno de nota. Minha saúde mandou belas lembranças.

Seishum San, que não mais habita entre nós, escreveu um bilhete que me comove muito, ele estava doente, doença que todos temem na velhice.

Orgulho de ser brasileiro! O vovô Seishum foi um bom pai de família, no final das contas, deixava o gás ligado, conversava sozinho, lembrava de coisas de um passado distante. Mas o que mais me chama a atenção, foi a trajetória, Eduardo veio ao Brasil com a família, pobre, passou fome, e o pai foi severo como tinha que ser, trabalhou, estudou e formou-se na FEG-Unesp, e mesmo depois de longas histórias e desalentos, manteve as amizades com nossa família. Minha mãe abriu mão de propostas e oportunidades, como também lutou para me sustentar, são muitas medidas à balança. Sabe como é, aquela velha historinha triste, de meninas sem uma figura paterna. Uma mãe solteira e um pai mochileiro, capaz de abandonar sua criança linda, de cabelos encaracolados loirinhos. Considerado normal nos dias de hoje, que não deveria. Mas eu tenho um pai que me ressuscita a todo tempo. E uma boa família, avós maternos preciosos já falecidos, e outros avós do coração.

Meus amados! Há quem diga que a vida é fácil, porque não é, e foi um D’us maravilhoso, que me salvou e me conectou a árvore da vida. Me emociono ao lembrar como foi o sofrimento de cada membro da minha família, cada pranto e cada choro. Hoje eu sei o que é me colocar no lugar dos outros de verdade. Tratar um amigo, como um amigo deve ser tratado, não quando é conveniente. Sendo justa e verdadeira, sem meias palavras. E essa justiça que me faz querer melhorar a todo tempo, vigiar-me e peregrinar pelo mundo, tentar trazer palavras de paz para quem foi alimentado com angústia. As minhas obras? Que sejam as que o amor me delegou. É isso, paz! Continuar aqui, seria escrever um livro, descrever com mais detalhes as situações, cada ser que marcou o meu caminho, mas não é nem 1% dos motivos que estão me edificando.

Muitos não conseguem sobreviver ao caos, olha para humanidade, é como uma flecha que atravessa o meu peito. Tem dias que me sinto fraca, sobrevivendo pela graça. Os humilhados serão exaltados. (Lucas, 14:11)

Um bom caminho para se seguir, encontrei meu equilíbrio. Algo ainda mais interessante é como o Zohar trás essa visão da Kabbalah. Kether brilha através de Tipharet não de Binah e Chokmah. E saber que poucos aplicam isso em seu dia-a-dia.

Sinceramente, minhas portas estarão sempre abertas para quem vem somar, não para quem gosta de rir para a morte, desses tenho pena, nunca virarei as costas a menos que eles se afastem, doa o que doer, às vezes eles precisam de palavras duras, às vezes precisamos de espaço para mudar, transformar dói, feri o orgulho, é preciso calma, para depois ouvir palavras regadas de amor.

Se você acha que tem um problema, comece a olhar para fora. Faça sua obra em silêncio, hoje não vou à igreja física, mais vou colocar uma mortadela no pão e entregar para um andante no bairro, conversar, sorrir e falar de família. (Mateus 6:3)

Ocasionalmente grandes opostos se abraçam sem medo, aceitando suas intermitências.

The end, that’s all folks.

Aba pai!

https://www.youtube.com/watch?v=4gVQwSunZVY

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