A cidade cinza-furta-cor

Aqui, em um mês na cidade cinza-furta cor, dos prédios altos e correia esquizofrênica, é impossível não perceber as diferenças sutis ou mais nítidas que dividem, não só de forma geográfica, as regiões do país.

Embora habitada por toda sorte de gente, São Paulo tem uma dinâmica ou hábitus muito próprio e logo que se chega, a cidade nos envolve de uma forma que assusta. Uma amiga me disse outro dia que a geografia é importante para nos fazer compreender alguns sentimentos. E de fato é… Estar longe geograficamente do lugar de pertença faz pensar sobre a rotina da vida e também compreender alguns sentimentos.

A correria das pessoas, que tem hora pra chegar e partir, sempre num ritmo mais rápido que o possível, o trânsito frenético e sempre com engarrafamento são sintomas que indicam que de fato a cidade não para. Intrigante contradição essa, pois quando o trânsito está parado pelo engarrafamento ou pela chuva é sinal de que a cidade está em pleno movimento, no ápice…
Por hora me pergunto, o que vim fazer aqui? Nesse lugar turbilhão…

Milton Santos estava certo, e minha amiga querida também, o lugar de pertencimento não está somente no lugar físico, fixo, o lugar de onde somos são as emoções que cultivamos, as relações de amizade e afeto, o parentesco da alma. O estar longe é tão relativo quanto estar perto, e tudo é movimento!

Até esta minha posição de agora, estática na cadeira do avião é movimento… Ao voltar para cidade que dizem ser a selva de prédios aciono meu controle externo no 220v para tentar dar conta dessa correria diária que me aguarda.

Alguns quilômetros me separam fisicamente de São Luís e tento me adaptar a esse outro modos operandi.

Sentir-me desafiada a conectar-me com outras percepções, outros olhares e formas de ser representa a construção de novos mapas afetivos e da compreensão de outros caminhos geográficos e emotivos, que estou começando a desenhar e trilhar. Como diz uma outra amiga “existir não é fácil”, e não é mesmo. Dar conta da vida adulta e do desenho do nosso mapa de vida profissional, pessoal, afetivo não cabe apenas nas racionalizações que fazemos sobre a vida.

O existir todo dia é um misto de gozo que combina dor e satisfação nas andanças da vida…