A vida na palma da mão?

Dia desses coloquei o celular no bolso do short enquanto brincava com minha filha. Com um bebê de 4 meses a gente faz mil coisas ao mesmo tempo, mas isso é assunto para um próximo post. E eis que por um descuido meu, o celular mergulha na água. Morte súbita.

No primeiro momento senti muita raiva de mim mesma pelo vacilo. Depois, não queria acreditar que meu celular tão novo estava sem funcionar. Em seguida bateu um breve desespero quando pensei nas fotos, informações, aplicativos e um mundo de coisas que tinha nele.

Depois de algumas horas, veio uma sensação de abstinência… muito tenso tudo isso. Fiquei pensando, como a gente se torna tão dependente assim das tecnologias? ou seria da rapidez com que fazemos as coisas com um aparelho que cabe na palma da mão? Ou seria, da dependência da comunicação com as pessoas pelos meios eletrônicos, via aplicativos e redes sociais?

A minha geração, que nasceu na década de 1980 e foi adolescente na década de 1990 não tinha esse recurso. Comprei meu primeiro celular aos 20 anos, quando arrumei meu primeiro emprego de carteira assinada, ou seja, já nos anos 2000. Essas situações me remetem ao período em que não tínhamos acesso a esses meios de comunicação. Mas todo mundo se comunicava. As relações (interações)sociais não inexistiam. Pensando nessa época, hoje me pergunto, como a gente fazia? rsrsrs

Lembro da Katiúscia, minha vizinha e melhor amiga na época, eu tinha 5 ou 6 anos. Entre o quintal da minha casa e o da casa dela, tinha um muro muito alto. E para gente se comunicar, pra chamar pra brincar íamos pro quintal e de lá eu gritava: Katiúscia, você taí? e ela respondia, gritando do outro lado do muro: tô sim. E eu novamente: vamo brincar?. E ela: vamos sim, pode vim pra cá. E assim a gente ia interagindo, da melhor forma criança de ser…

(Menina brincando: Telefone sem fio)

Penso na minha filha, que já nasceu numa época totalmente dominada pelas mídias e tecnologias digitais. Quando ela nasceu, poucas horas depois, meu pai que estava em outro estado, já pode ver uma foto dela. A mesma sorte não teve a mãe do meu pai quando minha irmã mais nova nasceu em Minas Gerais e ela morava no interior do Ceará.

Nestes dias sem celular, ao mesmo tempo que senti ma sensação de vazio, pois é através dele que hoje tenho contato com a maioria das pessoas, parei pra observar um outro mundo de coisas que eu poderia fazer, como por exemplo, escrever esse texto.

É chato não ter o wats pra conversar com a família, amigas(os) e com o companheiro quando ta longe de casa rsrs, mas o distanciamento dessas tecnologias nos permite buscar outras formas de socialização. Depois do ocorrido é que percebi o quanto estava refém do celular. Ah!!! Meus aplicativos do banco… nem mesmo lembro as letras de acesso da conta, pois pelo celular é mais rápido e prático e eu sequer me dei o trabalho de decorar. Os números de celulares gravados na agenda!!! e eu mal sei o número da minha mãe e do meu companheiro.

A vida digital nos permite muitas facilidades, praticidade e rapidez. Mas também nos deixa aprisionados no entendimento de que tudo está ao nosso alcance. As distâncias são ilusoriamente diminuídas e a facilidade de encontrar o que se quer e ter tudo “na mão” nos deixa seguros de que tudo está certo, tudo está fácil. Até parece que os eletrônicos não falham…

Resolver certas coisas é muito fácil, apenas alguns cliques, passar o tempo é mais fácil ainda, é só instalar alguns jogos, assistir vídeos, ter aplicativos que te permite fazer mil coisas. Essas facilidades, que são sim muito interessantes, por outro lado, também nos impossibilita de viver micro experiências do dia-a-dia.

Esses dias tenho (re)aprendido a controlar a ansiedade, “passar o tempo” e fazer muitas coisas de outras formas. E tem sido bom. Claro que sinto muita falta da praticidade do meu celular, sem falar no apego às coisas materiais que acabamos desenvolvendo, o que é o lado ruim disso tudo.

Não estou dizendo que devemos viver sem os eletrônicos. Há quem consiga rsrs. E pra mim o celular tem sido uma boa saída, já que a família e amigos(as) queridos(as) estão longe, mas fazer um desapego desses males necessários que tem dominado a vida (pós)moderna as vezes cai muito bem…

Espero que minha filha e outras crianças, nascidas nessa geração em que o tempo parece passar na velocidade de um clique, consiga interagir melhor nas relações presenciais e aproveitar o que a vida tem de concreto, para além dos aplicativos e das redes sociais.

(Crianças brincando)