Por que eu parei de beber?

Minha bisavó teve dois maridos e uma de suas netas me disse uma vez que cada um deles deixou uma herança maldita para seus descendentes. Sou descendente do primeiro marido da bisa e a herança maldita é o hipotiroidismo e o alcoolismo.

O hipotiroidismo descobri aos 5 anos devido ao crescimento irregular, apetite voraz e obesidade.Eu desenvolvi um transtorno alimentar mais tarde. A compulsão era constante e aumentava principalmente quando eu saía do consultório do endocrinologista ou nutricionista com mais uma dieta na mão. Perdi a conta de quantas foram. Já o alcoolismo eu espero não ter.

Na verdade eu tenho uma teoria de que a herança não é o alcoolismo, mas a depressão. A primeira vez que tive contato com a depressão foi aos 15 anos. Depois disso algumas crises se seguiram morando fora da casa dos meus pais.

Meu primeiro contato com álcool não foi na universidade, mas no ensino médio. Na época eu não precisava de mais de um copo de cerveja/vinho para ficar tonta e nunca passei disso. Na primeira vez que bebi na universidade tomei muito mais que uma taça de vinho. Vexame e ressaca. Prometi que nunca mais faria aquilo, mas fiz mais algumas vezes. A compulsão continuava e quando não era a comida, era a internet, a TV…Quando bebia não era diferente, abusava.

Não tinha o hábito de comprar bebida e beber em casa, mas comecei no doutorado. Comprava um vinho frisante ou cerveja e tomava uma garrafa em menos de uma hora. Eu pensava: é só uma vez por mês, não tem problema.

No inicio de 2015, fui a um casamento e “enchi a cara” publicamente. Nunca tinha tido uma ressaca com a vontade de morrer juntas. Resolvi parar de beber pelo menos cerveja por pelo menos 40 dias e consegui por um pouco mais de tempo.

Nesse meio tempo estava fazendo tratamento psicológico para a depressão e a ansiedade. Não tomava remédios, mas fazia psicoterapia e nunca mencionei os abusos com álcool, mas sempre falava da compulsão alimentar. Eu estava ganhando pelo menos um quilo a cada mês.

Aparentemente tudo sob controle. Até o dia em que comprei uma garrafa de vodca. Não tomei em um dia, mas consumi alguns shots numa noite de sexta-feira e saí sozinha. Bebi mais, voltei bêbada, mas salva pra casa. Dia seguinte aquela ressaca e dor pelo corpo todo, mas sem satisfação alguma. A gota d’água foi em um churrasco. Alguns vexames na festa e depois o pior deles sozinha em casa.

Li um texto que finalmente me acordou e me fez parar de beber. Ele foi escrito em inglês e não me lembro a fonte, mas extraí de um Tumblr.

Alcohol starts off as a treatment for anxiety, but within a few years its the only thing that works for anxiety, and soon enough anxiety isn’t the problem anymore, because you’ve lost your job and you can’t walk from the shakes and if you don’t drink a half-bottle of vodka before lunch you’re going to have a seizure. This is the pattern of drug addiction: a temporary solution becomes your new problem.

Me lembrei dos meus parentes próximos que sofrem com essa realidade acima e decidi que não queria correr o risco. Eu não queria mais ser a Cana Paula (apelido que ganhei no ensino médio) e nem ser lembrada pelos colegas da faculdade como a que bebia pinga nas festas. Não queria ser a tia que se não beber começa a tremer e suar frio.

Parei de beber para preservar minha saúde física e mental.