A cidade na vida e na voz da periferia: os gritos canetados de Ferréz

[resenha] [literaturas marginais] [Ensino Médio, anos finais do Ensino Fundamental II]

Obra: Cronista de um tempo ruim (2009).

Autor: Ferréz, escritor brasileiro.

Ferréz.

Cronista de um tempo ruim reúne diversos textos publicados por Ferréz em portais e jornais, como Le Monde, Caros Amigos e Folha. Observa-se, em seus 23 textos, um tom de denúncia, adotado por um narrador interessado em descrever e poetizar as partes esquecidas e as pessoas invisíveis das grandes cidades.

Que os moradores da periferia (como eu, tá ligado?) vão ao centro para prestar serviço não é nenhuma novidade, mas e a diversão? E desfrutar a cidade?
(…)
Tá certo! São Paulo é nossa também, afinal, cuidamos do dinheiro, lavamos, vigiamos, passamos, limpamos, digitamos, afogamos mágoas em pequenos bares, vivemos em pequenos casulos, comemos o pouco de ração que sobrou do outro dia e ainda dizemos amém, Sampa city, você é meu berço, pois não nascemos com nenhum de verdade. 
Construímos e não moramos, fritamos e não comemos, assistimos, mas não vivemos, passamos vontade, mas passamos adiante. (Sobreviver em São Paulo)

A violência e o abuso policial, a relação do jovem com o tráfico, o descaso dos governantes, o lugar perverso ocupado pela mídia e pelo consumo na periferia… Nada passa despercebido pela caneta de Ferréz. Nesse sentido, suas crônicas configuram-se um bom material para as aulas de Sociologia e de Redação, visto que abordam questões sociais relevantes, mas sob uma perspectiva que foge ao discurso hegemônico, o que pode ampliar o horizonte crítico dos alunos.

O fato é que esses grandes comércios não somam em nada na quebrada, não têm projeto social, não se adaptam à cultura local, pelo contrário. Nas periferias eles barbarizam os idosos, empurrando todo tipo de mercadoria, exploram os desinformados, com uma calculadora rápida e muitos sorrisos. Prometem relógio de brinde, com a dupla sertaneja de apoio.
E o crédito vai sendo aprovado, afinal nosso povo é honesto, sofre, mas não deixa manchar o nome. (Sobre pássaros e lobos)

Para as turmas do Ensino Médio, pode ser produtivo comparar os textos de Ferréz aos da escrita urbana dos séculos XIX e XX: qual é a cidade retratada por José de Alencar ou por Érico Veríssimo, por exemplo, e qual é a rememorada por Ferréz? Que diferenças históricas, sociais, culturais etc. explicam as eventuais proximidades e/ou discrepâncias observadas entre esses textos? Quais problemas tematizavam os autores do passado e quais interessam, hoje, à escrita de Ferréz? Há algo em comum? [para essa atividade é interessante recorrer não apenas às crônicas do autor, mas a outros títulos de sua obra, em especial no que tange à sua produção ficcional].

Vale mencionar que Cronista de um tempo ruim recebe o Selo Povo, “selo feito para livros de bolso, livros esses escritos por e para mãos operárias, rebeldes, marginais, periféricas”, e por isso é vendido a preços baixos. Sua linguagem acessível, aliada a seu singelo tamanho, pode tornar a obra atrativa a alunos que ainda não adquiriram gosto pela leitura.

[“Os escritores da periferia entraram em cena de maneira coletiva com a publicação das edições especiais Caros Amigos/Literatura Marginal. Idealizadas e organizadas por Ferréz, as edições lançadas em 2001, 2002 e 2004 venderam cerca de 30.000 exemplares e deram origem a um importante movimento literário” —pág. 10, prefácio de Érica Peçanha do Nascimento]