A favela e a fome denunciadas e poetizadas por Carolina de Jesus

[resenha] [literatura afro-brasileira] [Ensino Médio]

Carolina de Jesus.
A favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos trastes velhos.

Obra: Quarto de despejo — Diário de uma favelada

Autora: Carolina Maria de Jesus, escritora brasileira.

Descoberto por um jornalista, o diário da escritora e catadora de lixo Carolina de Jesus permite que o professor conduza debates acerca da pobreza e da desigualdade social no Brasil, do preconceito racial e das relações estabelecidas entre linguagem e poder. As inadequações sintáticas e ortográficas mantidas pelo editor fornecem material para se discutir a variação linguística em sala de aula, visto que seus aparentes “erros” não se sobrepõem ao rico conteúdo e à lucidez e sensibilidade de Carolina, apenas atestam sua falta de oportunidades. O cotidiano da favela retratado no diário situa-se na década de 1950, e nem por isso se revela menos atual.

… Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituiram os corvos.

Entre os papéis que recolhia para vender, a narradora retirava tanto o suporte de sua escrita quanto suas oportunidades de leitura. Muitas são as passagens que evidenciam seus conhecimentos políticos, culturais, históricos e sociais. São também recorrentes suas críticas diretas ao governo de Juscelino Kubitschek e a determinados políticos e deputados da época, tornando Quarto de Despejo um interessante material histórico, passível de ser explorado nas escolas.

Consciente de que poderia vir a publicar seus textos, Carolina registra seus anseios e sonhos em diversas passagens: “… os editores do Brasil não imprime o que eu escrevo porque sou pobre e não tenho dinheiro para pagar”. É interessante perceber o quanto o teor de sua escrita dá origem a conflitos com os demais moradores, inicialmente por funcionar como uma ameaça: “Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo o que aqui se passa. E tudo o que vocês me fazem”; e, em um segundo momento, por ser compreendido mais como uma exposição negativa da comunidade que como uma escrita de denúncia. Essas pequenas desavenças atribuem um excepcional tom de comicidade à trama, além de darem margem a uma reflexão sobre os significados e os fins da Literatura, tema este importante para o ensino da disciplina.

O fato de ser mãe solteira de três filhos faz com que Carolina expresse quase que uma única preocupação em seu cotidiano: a fome, tema central de seus escritos.

… O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no proximo, e nas crianças.
… Os filhos estão com medo de eu morrer. Não me deixam sozinha. Quando um sai, outro vem vigiar-me. Dizem: Eu quero ficar perto da senhora, porque quando a morte chegar eu dou uma porretada nela.

Como em qualquer diário, o leitor se deparará com muitas repetições. “Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua” é a frase de abertura de quase todos os seus dias, sendo tão presente quanto a fome. Porém, engana-se quem pensa que o diário dessa “favelada” dá margem à monotonia. O grande mérito e a grande beleza da escrita de Carolina de Jesus, que explicam sua tradução para mais de dez idiomas, estão justamente em sua habilidade e em seu talento para transformar o cinza, o pobre e o sem vida em poesia e denúncia.

— É pena você ser preta.
Esquecendo-se eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça êle já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta.