Nações “crioulas” e escravagistas no romance epistolar de Agualusa
[resenha] [literaturas africanas] [Ensino Médio, anos finais do Ensino Fundamental II]

Obra: Nação Crioula (2001).
Autor: José Eduardo Agualusa, escritor angolano.
Antes de forçar um Africano a trocar as peles de leopardo por uma casaca do Poole, ou a calçar umas botinas do Malmstrom, seria melhor procurar compreender o mundo em que ele vive e sua filosofia.
O jovem Arcénio de Carpo olhou-me entre o escândalo e o desgosto: «Filosofia? Pois vossa excelência veio a África à procura de filosofia?». Dei-lhe razão. Aquilo que os europeus desconhecem é porque não pode existir.
As cartas enviadas pelo aventureiro português Carlos Fradique Mendes, endereçadas alternadamente a Madame de Jouarre (sua madrinha), a Ana Olímpia (sua amada) e a Eça de Queiroz (seu amigo), fornecem uma interessante releitura histórica da situação política e econômica de Angola, do Brasil e de Portugal na segunda metade do século XIX.
Um jovem advogado, Joaquim Nabuco, actualmente na legação brasileira em Washington, ficou famoso quando, em 1869, no Recife, teve de defender um escravo já uma vez condenado à forca. Tomás, assim se chamava o escravo, fora açoitado em público, e, em represália, assassinara o seu senhor. Condenado à morte, conseguira escapar da prisão, matando um guarda. Capturado pouco depois foi outra vez a julgamento, calhando a Nabuco defendê-lo:
— Este homem não cometeu crime algum! — gritou Nabuco apontando o escravo.
— Removeu simplesmente um obstáculo!
O público presente na sala entusiasmou-se e o jovem prosseguiu denunciando a brutalidade e o absurdo da escravatura:
— Aquele que luta contra os agentes da punição faz, de algum modo, a própria defesa individual contra uma ordem jurídica que o não respeita nem o protege.
Tomás foi condenado a prisão perpétua, mas, pelo menos, escapou da forca. E este princípio de legítima defesa, defendido por Nabuco, fez história, passando a ser evocado em julgamentos semelhantes. E porque acredito nele (ainda que não acredite em muito mais) que me juntei àqueles que combatem contra a escravatura.
Tendo a escravidão como eixo temático, o romance aproxima-se do que os Estudos Literários têm entendido por “metaficção historiográfica”, conceito postulado por Linda Hutcheon para se referir a narrativas que buscam reinventar fatos e personagens históricos, tornando, assim, tênues as linhas que separam realidade e ficção. Desse modo, é comum nos depararmos com nomes que nos são familiares — como o do já mencionado Eça de Queiroz — , com destaque para a recuperação que Agualusa faz de importantes representantes da causa abolicionista no Brasil, como o poeta Castro Alves, e os poetas e advogados Luís Gama e Joaquim Nabuco. Trata-se, portanto, de um rico material para explorar o conceito e a ocorrência da intertextualidade em sala de aula, além de se configurar uma oportunidade singular para a apresentação de diferentes escritores e aspectos da cultura e da literatura afro-brasileira.
Na companhia de José do Patrocínio veio do Rio de Janeiro uma outra figura importante do movimento emancipalista: o advogado Luís Gama, muito conhecido por nos últimos anos se ter distinguido na defesa de cidadãos ilegalmente escravizados. Gama conheceu ele próprio essa situação, pois sendo filho de uma negra livre, e tendo portanto o direito à liberdade, foi vendido pelo pai ainda criança, fugindo pouco depois e vivendo uma incrível sucessão de aventuras antes de se formar e estabelecer como advogado. « Em nós» , disse-me Gama, « até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor está na origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura vulcões onde arde o fogo sagrado da liberdade» . Este discurso é muito diverso do de certos mestiços, que depois de enriquecerem esquecem rapidamente a sua origem africana, fazendo a sociedade o favor de se esquecer também.
De modo geral, a obra permite ao professor desenvolver um trabalho interdisciplinar, sobretudo no que tange às disciplinas de geografia e de história, visto que Nação Crioula não apenas se vale de narrativas históricas, como as aprofunda ou questiona, sempre enfatizando os espaços e as culturas locais inerentes a cada acontecimento.
O conteúdo das cartas do romance também dá margem para se pensar a escravidão em sua complexidade, pois nos vemos diante de uma narrativa atenta tanto a questões macro (como os interesses das metrópoles, a dinâmica do tráfico de escravos) quanto a seus efeitos mais particulares (nas relações dos negros, na construção de suas identidades e valores). Ana Olímpia, por exemplo, revela-se uma interessante personagem para se repensar, junto aos alunos, certos estereótipos associados aos negros escravizados. A amada do narrador, distante da passividade e da submissão usualmente atribuídas a seus contemporâneos, transita por diferentes classes sociais (inicialmente pobre, torna-se rica e respeitada e, depois, novamente escrava), o que torna oscilantes suas opiniões sobre a escravidão, motivo pelo qual chega a negar alforria a seus próprios escravos.
Também o olhar crítico de Fradique, ao se rebelar contra seu próprio país devido ao amor que passa a sentir pela ex-escrava, possibilita aos estudantes perceber a lógica perversa e violenta da escravidão, bem como refletir sobre seus efeitos nos dias atuais (desigualdade, preconceito).
Depois de 1835 nunca mais os hausa foram vendidos no Brasil e isso talvez explique, pelo menos em parte, o fim das revoltas. Os escravos que nestes últimos anos têm chegado a Pernambuco e a São Salvador, quase todos naturais de Angola, Congo, Gabão e Moçambique, são na sua maioria camponeses pouco instruídos nas artes da guerra, e sem vontade alguma de a fazer. Os Angolenses, tidos por trabalhadores, vendem-se por bom dinheiro. Já com os negros de Moçambique acontece o contrário, pois que por aqui os consideram, e sirvo-me das palavras de Alexandre, « uma pobre e feia raça de seres lânguidos, preguiçosos e propensos à melancolia» , sendo o seu preço inferior aos de qualquer outra nação. Os naturais do Gabão sofrem igualmente com a saudade de África. Muitos suicidam-se deixando de comer ou comendo grandes quantidades de terra. Ainda há pouco tempo os geófagos eram castigados trazendo durante dias a fio grotescas máscaras de ferro presas à cabeça. Com o calor do sol as máscaras colavam-se ao rosto deformando-o horrivelmente. Esta prática caiu em desuso, não porque os senhores de engenho se tenham tornado mais humanos, mas porque, com o fim do tráfico, os escravos passaram a ser mercadoria preciosa, e portanto protegida.
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O que ele ainda não compreendeu é que com o fim do tráfico negreiro, e em consequência do constante aumento do número de colonos europeus e da mistura de sangues, este país ficará inteiramente branco dentro de quatro ou cinco gerações. Assim, a abolição da escravatura há — de assinalar também o princípio do fim do homem negro no Brasil. Permanecerão talvez as danças, e veremos senhoras de pele branca a praticar a umbigada nas rodas do batuque; hão-de continuar os velhos deuses africanos, cultuados por um povo que se esqueceu de África, e ficará uma vaga, distante, memória da escravatura. O resto será apenas cinza e sombra.
Em princípio, “nação crioula” seria o nome do navio negreiro responsável pela fuga de Fradique e Ana para o Brasil. No entanto, a atenção de Agualusa aos cruzamentos e às trocas culturais daquele contexto indica que tal título faz jus ao hibridismo, não apenas linguístico, destacado pelo narrador. Na obra, o professor pode encontrar, por exemplo, a descrição e as origens de festividades de matriz africana que influenciaram a cultura brasileira, como a “congada”, assistida e narrada por Fradique em sua visita a Pernambuco.
Por fim, cabe ressaltar que, por se tratar de um romance epistolar, o educador tem a opção de selecionar um número reduzido de textos para trabalhar em sala de aula, caso não seja possível discutir toda a obra.