#1: Reflexo

Me vi ali. Parada, nua, na completa escuridão. Me sentindo tão vulnerável mas ao mesmo tempo tão livre. Foi desses momentos que você vive e percebe que está vivendo. Não daqueles que você só lembra depois que sabe que não vão acontecer mais. Engraçado, como se você pudesse viver e assistir ao mesmo tempo. Simultaneamente fazer e observar uma expressão facial. Observar no escuro. Eu já falei que estava escuro? Escuridão que me vestia, apesar de estar nua, e que me despia de minhas defesas. Que era escudo e que me deixava ali, disponível. Era tudo escuridão e silêncio e eu ouvi meu coração, não como os poetas e pagodeiros fazem, eu literalmente ouvi as batidas. Foi estranho, subitamente percebi que tinha um coração. Me percebi como viva, como pensante. Eu estava viva, e havia uma bateria de escola de samba pulsando no meu peito pra me provar isso. E era tudo vazio, onde havia coisas agora não havia nada. E não havia mais cheiro nem som. Nada além do meu coração que batia e batia. Pois e só em meio ao nada que se ouve o coração. E é no meio do nada, onde teoricamente nada podia me atingir que eu senti medo. O medo mais infantil de todos, o medo do escuro. O ridículo medo do nada. E de repente, a cegueira pelas trevas tornou-se a cegueira pelo excesso de luz. A energia tinha voltado e enquanto recuperava a visão foi se materializando ali, diante de mim, o reflexo do meu corpo nu e ensaboado no vidro blindex do banheiro.

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