Eu tive um pai operário.
Eu cresci vendo ele sair cedo (ou tarde) para trabalhar.
Eu cresci ouvindo as conversas dele com a minha mãe sobre os perrengues do serviço.
Eu cresci vendo ele somar e dividir os proventos num caderno velho para ver se aquele dinheiro durava o mês inteiro.
Eu vi ele sonhar com mês das férias.
Eu presenciei a Kombi da empresa buscá-lo em casa, fora de hora, para uma emergência.
Eu o esperava chegar cansado do trabalho, depois de um dia tenso e do ônibus lotado.
Eu ainda posso sentir o cheiro de suas mãos sujas de graxa.
Eu lembro que dia mais incrível do mês era o dia de fazer compras e abastecer a dispensa.
Eu não me esqueço quando, no seu dia de folga, o nosso passeio no clube da empresa foi interrompido e o seu nome foi chamado no autofalante para "para voltar ao serviço".
Eu lembro quando ele chegou mais tarde em casa porque estava participando de uma assembleia no sindicato dos trabalhadores.
Eu lembro quando, mesmo temeroso, ele participou da greve geral buscando melhor condições de trabalho para si e para os colegas.
Eu cresci sabendo que para continuar os meus estudos eu teria que ralar muito e mesmo assim, juntar moedas para pagar a boleta da faculdade todo mês... e sem a ajuda dele seria impossível.
Eu vi ele comemorar cada conquista trabalhista como operário daquela grande empresa.
Eu lembro da sua esperança ao se ver representado por um igual nos meios políticos. E lembro também de vê-lo questionar e criticar algumas posturas deste.
Eu ouvi o longo suspiro dele no último dia de serviço antes da aposentadoria.
Eu vi uma lágrima rolar dos seus olhos no dia da minha formatura.

Eu lembro porque eu vivi isso na pele.

Hoje, mesmo em melhores condições que ele, eu tenho clareza da luta dos trabalhadores pelas causas sociais e pelos menos favorecidos. Eu vivi essa história. 
E é deste lado da história que eu venho.
É essa a história que eu conheço.

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