Devaneios sobre as rédeas da vida

Vivemos em tempos de terceirização. E não falo sobre aquela terceirização de trabalho, em que empresas prestam serviço na administração pública. Falo sobre terceirização em nossas vidas.

Foto: Ana Paula Batista

A vida anda corrida e nos vemos muitas vezes engolidos pela rotina. Tanto que nem percebemos a passagem dos dias, das semanas… Um ano se passa. Mais um. E sempre a sensação de que o tempo está voando.

E como estamos vivendo esses dias? Terceirizamos a nossa saúde, nossa alimentação, a educação dos filhos, nosso lazer e, se duvidar, até nossos relacionamentos. E assim vamos perdendo as rédeas da própria vida. E o tempo vai passando…

Se a criança apresenta algum comportamento inadequado, a culpa é da escola. Se a criança não come direito, a culpa é da babá. O adolescente que apresenta problemas… a culpa é dos amigos, claro! Se desenvolvemos doenças relacionadas à alimentação desequilibrada que adotamos no dia-a-dia, a culpa é do restaurante, da cozinheira, da indústria alimentícia. Se alguma coisa não dá certo em um tratamento ou intervenção, a culpa é do médico. Se o companheiro ou companheira não está mais tão envolvido na relação, a culpa é dele (a) ou do resto do mundo que anda mais atraente. A culpa é sempre do outro. Reclamamos da programação de domingo das emissoras da TV ou da novela que está chata, mas continuamos ali, marcando presença, em vez de simplesmente fazermos outra coisa que nos dá prazer num momento de folga. Reclamamos do governo, da desonestidade dos políticos, mas será que somos assim tão honestos em nosso dia-a-dia?

Não estou dizendo que devemos largar nossos trabalhos para cuidar dos filhos em tempo integral e ensiná-los em casa e deixarmos esse negócio de escola pra lá. Também não estou dizendo que temos que fazer tudo, desde plantar nossa própria comida e viver apenas do que produzimos ou fazer todo o trabalho de casa. Não estou dizendo que todas as pessoas são legais e puras de coração e que a culpa é sempre nossa se o relacionamento não vai bem. Muito menos que os políticos não são desonestos.

E onde quero chegar então? Apenas convidar à reflexão. A terceirização em si não é um problema. Pelo contrário… pode ser solução para muitos dos nossos problemas! Temos nossas fragilidades, nossas prioridades e precisamos sim de apoio e ajuda para que as diversas áreas de nossa vida funcionem e se harmonizem. Entretanto, acredito que as responsabilidades devam ser compartilhadas e nós devemos estar mais atentos ao gerenciamento daquilo que terceirizamos. Devemos estar mais atentos ao que nos cabe. Tomar as rédeas da vida. Fazer escolhas. Viver.

Nossas escolhas são seguidas de consequências, obedecendo a grande lei natural da causa e efeito. O mesmo acontece com a nossa falta de escolhas. Quando começamos a ter mais consciência e tomar decisões, também temos a sensação de que esse tempo que voa está fazendo mais sentido. Dá mais trabalho, pois assumimos mais responsabilidades, mas tenho a impressão de que nos sentimos mais vivos.

Para isso, precisamos nos conhecer melhor. Entender nossas fragilidades, habilidades e potencialidades para crescer. Precisamos ter mais consciência daquilo que nos é apresentado, em vez de simplesmente culpar a indústria alimentícia, a economia do país, os médicos, o método de ensino da escola, os políticos, a sociedade, a humanidade, Deus… e continuar de braços cruzados, aceitando tudo passivamente e sem fazer a nossa parte. Ou sem sequer saber o que podemos fazer para mudar o nosso pequeno universo.

Claro que existem as coisas que não dependem muito da nossa vontade. Somos poderosos, mas nem tanto! E cabe a nós aceitá-las ou conviver com as mesmas da melhor forma possível. Para fechar esse convite em forma de desabafo compartilhado ou um simples devaneio, tomo emprestadas as palavras de São Francisco de Assis em uma das preces mais lindas que conheço.

“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado. Resignação para aceitar o que não pode ser mudado. E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”